UFF Universidade Federal Fluminense
TEMA: FORMAÇÃO DO ESTADO PARAGUAIO: A SOCIEDADE PARAGUAIA ENTRE 1811 E 1870
ORIENTADOR: PROF. DR. THÉO LOBARINHAS PIÑEIRO
AUTOR: CAESAR AUGUSTO DOS SANTOS MONTEIRO
NITERÓI
2000
Agradecimentos
Esta monografia, resultado - modesto em minha apreciação – da minha apreensão do curso de especialização em História do Brasil, não teria sido possível sem a colaboração direta e indireta de professores, colegas de curso e pessoas responsáveis pela organização e administração do curso.
O trabalho foi elaborado em um momento extremamente difícil de minha vida pessoal, e o apoio por mim recebido da parte dessas pessoas foi fundamental não só na continuação do curso como na sua conclusão através dessa monografia.
Um especial agradecimento a Inêz e a Silvana, que através de palavras de carinho e atitudes me facilitaram ao máximo o cumprimento das exigências burocráticas. Aos coordenadores Márcia Motta – minha professora no curso de graduação, a Gabriel que me trouxe palavras de conforto e incentivo em meio a tormenta.
Meu professor-orientador Théo, amigo de longa data, que ultrapassou em muito a sua tarefa de orientar os trabalhos e auxiliou decisivamente, através de suas sugestões e correções o comprimento de minha tarefa.
A minha esposa Cláudia, que sofrendo as mesmas dificuldades que as minhas conseguiu forças para me injetar ânimo.
Finalmente ao meu filho Adriano, que através de sua presença espiritual nunca deixou que eu perdesse o norte de minha vida.
Para Adriano, “em memória”
Introdução
Na tentativa da compreensão do processo de formação da sociedade paraguaia, desde o período imediatamente posterior a sua independência da Espanha até o final da guerra contra a Tríplice Aliança (Império do Brasil, Argentina e Uruguai), observamos na historiografia existente sobre o assunto duas abordagens distintas mas que levam a uma visão, que em sua essência, tem a mesma raiz, o maniqueísmo.
Essas perspectivas de abordagem explicativa começam a ser forjadas no mesmo período, ou seja, durante o conflito entre o Paraguai e seus vizinhos do Prata, mas se afirmam em épocas distintas. Transcorre cerca de cem anos entre a “soberania” historiográfica daqueles que “barbarizam” a sociedade e o governo paraguaio e daqueles que os “idealizam”.
A visão de ambas tem, em última análise, o intuito de utilizar aquele momento da história guarani para projetar seus próprios valores nessa sociedade. Ora tornando-a exemplo de inferioridade cultural face ao “mundo civilizado”, ora atribuindo-lhe superioridade material e moral perante o mundo que a cercava. Ambas as interpretações são sempre apaixonadas e isto se explica pelo relativo – ou total – desconhecimento, da sociedade a qual combatiam denegrindo-a, ou defendiam elevando-a a um status que possivelmente nuca teve.
Os estudiosos que projetaram sua própria “visão de mundo” sobre o “mundo paraguaio” da época acima referida, procuraram sempre na ausência ou na presença de elementos existentes no povo guarani uma via de imposição – através da comparação – de sua ideologia.
Atribuir um conceito de igualdade ao “outro” leva a um distanciamento, em relação a sua compreensão, igual ou pior que atribuir-lhe um conceito de inferioridade. É, a partir dessa premissa que procuramos entender a sociedade paraguaia através não de sua superioridade, igualdade ou inferioridade em relação a outros valores, e sim a partir de suas especificidades. O modelo existente no Paraguai, no nosso entender, deve-se a características próprias, fruto da herança de um passado diferenciado em relação as regiões vizinhas. O que possibilitou a implantação de um “projeto de governo” que foi em parte conseqüência da aplicação racional e coerente por parte de suas lideranças – até a deflagração da guerra -, dos recursos já existentes quando eles assumem o poder, e em parte a uma política que resguardava o país da interferência nefasta de seus tumultuados vizinhos, isolando-o desses mas mantendo contato – na medida do possível – com um modelo de mundo a ser copiado, o da “civilizada Europa”. No entanto sua inserção na economia liberal, segundo seus governantes, deveria ser feito mantendo a autonomia do Estado e, consequentemente da sociedade.
Após décadas de relativo isolamento e de uma política de não intervenção em assuntos do Prata, o Paraguai parte para um confronto com seus vizinhos. Não entraremos em nossa análise no mérito de julgamento de valor – se foi uma guerra justa -, iremos nos ater ao fato de que foi resultante da tentativa de manutenção de uma política interna e não uma imposição externa (expansionismo brasileiro e argentino ou imperialismo britânico). Essa vertente de explicação tem sua importância, mas se subordina a uma lógica imposta de dentro para fora, ou seja, a da sobrevivência e integridade do Estado guarani.
I
O Paraguai Barbarizado
Ao analisarmos essa corrente historiografia torna-se necessário procurarmos os pontos em comum e o eixo central de pensamento de alguns dos autores à ela pertencentes. Os autores selecionados são contemporâneos ao conflito e dele participaram ativa ou passivamente – no caso de von Versem, como observador e prisioneiro -, de um ou outro lado dos países beligerantes. À época a que nos referimos é o terceiro quartel do século XIX e portanto, falaremos do imaginário de pessoas pertencentes a elite social desse mundo, fossem elas européias ou americanas.
Utilizamos Hobsbawm para nos auxiliar na tarefa de elucidar a visão de mundo desses técnicos ou militares, travestidos em historiadores, em seus esforços para nos deixar suas reminiscências do trágico conflito. Em sua obra “A Era do Capital 1848 – 1875” , O historiador Eric Hobsbawm, no capítulo dedicado a Ciência, Religião e Ideologia, define do seguinte modo a linha de pensamento das elites da época:
“Assim como o tipo negro (escreveu a Anthropological Review) é fetal, o tipo mongol é infantil. E, de acordo com isto, encontramos que o governo, literatura e artes deles também são infantis. Crianças sem barba cuja vida é uma tarefa e cuja maior virtude consiste numa obediência indiscutível...”(1)
Continua Hobsbawm “Trate-os como crianças (coloca o capitão Osborn). Faça-os fazer o que sabemos que é melhor para eles como é para nós, e todas as dificuldades (...) chegarão a um fim”.(2)
É, justamente aquela “virtude da obediência” e o “comportamento infantil e a necessidade de tutela” que sempre estará em destaque quando se fala do povo paraguaio. Thompson, no capítulo 1 de sua obra quando faz um esboço da História do Paraguai, declara
“Adquiriram, assim, os jesuítas uma influência permanente no Paraguai, e dela se aproveitaram beneficamente. (...) Reduziram os índios a um estado de disciplina e obediência mais que militar, sob o qual eles renunciaram gradualmente à razão e ao pensamento, fazendo o que lhes era ordenado, sem pensar se seus senhores tinham ou não direito de governá-los”.(3)
Von Versen, em seu livro alega que:
“... pela intervenção dos jesuítas que, durante 160 anos tutelaram com extraordinário tino a população, (...) de sorte que os guaranis se tornaram dóceis ao mando da Igreja: ficou assim inoculado o germe de sã disciplina, e ficou preparado o caminho para o futuro deste povo”.(4)
Sena Madureira, em sua réplica a Thompson, afirma no capítulo 2 que “Quanto ao esboço histórico que fez do Paraguai nada temos a opor...”.(5)
Nos três casos citados, os autores por afirmação ou por aceitação das afirmações, encaixam a sociedade guarani dentro do esquema de pensamento vigente à época, das elites européias e americanas em relação as culturas e raças que lhes são diferentes. Esse pensamento captado por Hobsbawm é de que: “Outras raças eram “inferiores” porque representavam um estágio anterior da evolução biológica ou da evolução sócio-cultural, ou de ambas” .(6)
Outro e fundamental elo de ligação entre os diversos autores que tem uma visão barbarizada da sociedade paraguaia, é o racismo, que tinha um papel central na legitimação da expansão do mundo burguês. No pensamento da intelectualidade brasileira, as imagens e conceitos cunhados em países distantes, buscavam referências para a compreensão do quadro em que se moviam, assim procuravam ser semelhantes às nações que se apresentavam portadoras de civilização.(*) Para clarificar essa afirmação recorremos novamente a Hobsbawm
“O racismo tinha um papel central em outra ciência social que se desenvolvia rapidamente, a antropologia, uma fusão de duas disciplinas sensivelmente diferentes, a “antropologia física” (...) e a “etnografia”, ou a descrição de várias comunidades – geralmente atrasadas ou primitivas. Ambas inevitavelmente confrontaram e foram de fato dominadas pelo problema da diferença entre diversos grupos humanos (...) assim como os diferentes tipos de sociedade, dos quais o mundo burguês parecia sem dúvida o mais elevado.”(7)
Para esclarecermos a ligação entre os diversos “historiadores” tendo como pano de fundo o racismo e o etnocentrismo, torna-se necessário conhecermos um pouco da formação intelectual de cada um deles.
Começando por George Thompson, engenheiro civil inglês contratado ainda ao tempo de D. Carlos Antônio López que, com o intuito de modernizar o país contrata uma plêiade de técnicos estrangeiros, em sua grande maioria, ingleses. Ele chega ao Paraguai por volta de 1857 e é tratado, como os demais especialista estrangeiros, com grande deferência pelas autoridades e pelo povo guarani. A missão dele como a dos demais era “levar a civilização e o progresso aos confins da América”. Corroborando essa descrição dedutiva da personalidade de Thompson invocamos Hobsbawm: “É impossível não partilhar a sensação de excitação, autoconfiança e orgulho que empolgavam os que viveram através desta época heróica dos engenheiros...”.(8)
Ele classifica a raça paraguaia como uma mistura de espanhóis e aborígenes e a divide em quatro classes: brancos, mulatos, índios e negros. Segundo suas palavras “Os “brancos”, a aristocracia do Paraguai, descendes dos primeiros conquistadores espanhóis, casados com mulheres índias.”(9) Nota-se nesse trecho sua observância das características raciais da população colocando a aristocracia como sendo branca mas não pura. Ao falar de Francia, o primeiro governante do Paraguai independente, lhe atribui a ação de criar
“seu terrível sistema de tirania (...) Todo o suposto inimigo do governo (...) era jogado na prisão, e muitos foram fuzilados, especialmente os homens mais influentes do país, e suas propriedades confiscadas (...) Francia fechou o Paraguai inteiramente, por terra e água, a qualquer comunicação com o exterior (...) Proibiu a entrada e saída do país, tanto de pessoas como de bens (...) ”(10)
Este longo trecho demonstra de modo claro a antipatia do inglês em relação a um regime totalmente adverso as normas que regiam as sociedades ”civilizadas”. O liberalismo econômico e a não intervenção do estado na economia bem como a garantia absoluta da propriedade privada, axiomas básicos dos regimes liberais, inexistem no governo de Francia. Estas características colocam a sociedade guarani no rol dos povos “atrasados”.
Quanto a Carlos Antônio López, sucessor de Francia, ele acusa de grande nepotismo e venalidade devido ao poder absoluto que concentrava, chamando-o de López I. Não obstante, segundo o autor: “seu governo foi relativamente benéfico para o Paraguai. Provavelmente em nenhum país do mundo a vida e a propriedade estiveram tão garantidas como durante o seu reinado”(11) e continua “Em 1845, López I declarou aberto o país ao comércio e à imigração estrangeira. “(12) Na medida em que o governo paraguaio se abre às necessidade do liberalismo, ou seja, comércio livre e proteção à propriedade, ele é visto com melhores olhos. Ao liberar o comércio ao exterior, construir arsenais, navios a vapor e estradas de ferro, o velho López tornou-se mais civilizado que seu antecessor. Isto amenizava sua tirania, nepotismo, atrocidades e gênio petulante.
Do povo guarani naquele período ele fala:
“... a idéia que fazem do máximo de felicidade humana é passar alguém o dia inteiro deitado à sombra, sobre um poncho estendido, a fumar e tocar violão, podiam considerar-se felicíssimos (...) os paraguaios viviam de maneira tão simples, tendo tão poucos luxos, que o modo de vida aqui descrito os satisfazia inteiramente. Nada conheciam de melhor.” (13)
O comportamento infantil, despretensioso, quase ingênuo e subserviente da população se encaixava adequadamente ao padrão das culturas atrasadas. Afinal “nada conheciam de melhor”. Thompson os julgou pelo que não possuíam.
Em relação a Francisco Solano López, ou López II, os depoimentos e juízos de valor por parte do autor são bem mais abundantes. Ao barbarizar a imagem de López, o engenheiro inglês tem objetivos muito claros: o de desacreditá-lo perante a opinião pública e, consequentemente isentar-se de qualquer culpa ao cumprir a função de engenheiro-chefe no exército paraguaio. No prefácio de sua obra o autor já deixa claro suas intenções
“ (...) considero López um monstro sem paralelo; mas foi somente em fins de 1868 que descobri seu verdadeiro caráter (...) Considerando assim que este livro pudesse de algum modo influir sobre a decisão dos aliados de apressar a conclusão da guerra e salvar, assim, a vida de mulheres e crianças paraguaias, agora morrendo de fome (...) Conquanto me refira sempre com horror e aversão ao déspota que sacrificou seus concidadãos com o objetivo de satisfazer seu egoísmo e ambições pessoais, para os paraguaios professo os mais amistosos sentimentos (...) aliviando, tanto quanto pude, as agruras da vida militar aos que se encontravam sob minhas ordens, e salvando muitas de suas vidas.”(14)
Nos parece que, através do referido prefácio e o aprofundamento de suas denuncias ao decorrer da obra, o autor atinge seus objetivos. Qual o melhor modo de inocentar-se de possíveis acusações sobre seus procedimentos do que atribuir ao comandante máximo do exército e do país alcunhas de déspota, mesquinho e dissimulador ? Pelos fatores que expusemos anteriormente não seria difícil convencer o “mundo” sobre o caráter bárbaro dos governos paraguaios e, em especial, a Solano López.
Ao falar da “raia miúda” ou mesmo da “gente calçada” ou seja, do povo e da aristocracia, lhes atribui total subserviência ao regime devido ao terror imposto pelo Estado, pelas superstições incentivadas pela Igreja (também por aquele controlada) e pela falta de maiores ambições materiais e intelectuais da população. Confirmando isto Thompson afirma quando do protesto à intervenção do Brasil no Uruguai:
“Todas as pessoas, quaisquer que fosse sua posição social, foram obrigadas a assistir tais folguedos, (...) Nem mesmo profundos pesares de família constituíam justificativa bastante para a ausência de tais manifestações.”(15)
Fica patente que a população paraguaia em seu conjunto estava tiranizada pelos seus governos e a isso não reagiam ou por terror ou por conformismo, derivado da ignorância. Para corroborar a infantilidade dos paraguaios ele descreve:
“Foram abertos três hebdomadários novos, além do semanário: o Centinela, em espanhol, com um ou dois artigos em guarani; e o Lambaré e o Cabichuí, ambos escritos literalmente em guarani. Este último pretendia ser algo como a imitação do Punch, mas suas pilhérias eram muito grosseiras, e as vezes escandalosas.”(16)
O referencial de medida da cultura paraguaia é sempre a cultura européia, mesmo guando o autor julga o Paraguai pelo que ele “possui”, é algo inferior ao seu correspondente civilizado.
Para finalizar, gostaríamos de transcrever duas passagens significativas quanto a barbarização do povo paraguaio e de sua cultura inclusive no seu aspecto religioso:
“Se, no meio de seus camaradas, um paraguaio era feito em postas pela explosão de uma granada, os companheiros achavam aquilo uma tremenda piada, e soltavam berros de prazer, aos quais se teria juntado a própria vítima, se fosse capaz.”(17)
e quanto à religião:
“(...) o novo bispo Palácios, (...) Desde a sua sagração, passou a comer à mesa de López, (...) o que sem dúvida contribuiu para piorar-lhe o caráter, de natureza mau (...) Aviltou-se inteiramente, e a todo o clero, ao serviço de López (...)”(18)
Hobsbawm explica as afirmativas de Thonpson quando descreve o pensamento prevalecente entre a burguesia européia da época de que o governo, literatura e artes deles(dos povos atrasados) são também infantis e de que: “O anticlericalismo era militantemente laico, na medida em que pretendia tomar da religião qualquer status oficial na sociedade (...)”(19)
A utilização de seus próprios valores, que eram os mesmos da intelectualidade burguesa da época, para julgar a sociedade paraguaia, juntamente com sua necessidade de escusar-se perante a opinião pública sobre sua participação junto a um governo bárbaro, faz com que Thompson, através de sua obra, contribuísse em muito para denegrir, através da barbarização, a sociedade paraguaia, até então quase totalmente desconhecida do público europeu.
Vejamos agora os depoimentos de Von Versem que corroboram o juízo de valor formado pelo inglês. Quem era esse oficial prussiano que atuará no conflito como observador, primeiro voluntariamente e depois compulsoriamente? Era um oficial de Estado-Maior com destacada atuação na guerra austro-prussiana, fazia preleções na Sociedade Militar e no Grêmio Científico em Berlim, ouvia preleções na sociedade militar de Potsdam e era subordinado do general von Moltke, um dos mais conceituados militares da época. Em suma, pertencia a alta estirpe da casta militar - os Junkers – e ao seleto grupo de intelectuais da capital da Prússia. Admirador de Humboldt, pertencia a uma sociedade extremamente preocupada com a divulgação da ciência e da civilização, lembrando as palavras de Hobsbawm:
“Fora do mundo latino e da Inglaterra, e mesmo numa certa medida em ambos, o modelo alemão de universidade era geralmente adotado. A predominância alemã era sobretudo quantitativa: em nosso período provavelmente um número maior de jornais científicos foram publicados nesta língua do que em francês e inglês juntos.”(20)
Onde houvesse uma elite atraída pela “modernização”, encontravam-se ideólogos e publicistas e, a elite alemã da qual von Versem pertencia, havia sido cooptada por esse espírito. Por outro lado diz Hobsbawm:
“ Mas se os pensadores alemãs (que nunca engoliram direito teorias liberais extremas) estavam, como os conservadores em todos os lugares, preocupados com o fato de que a sociedade produzida pelo capitalismo liberal mostrava-se perigosa e instável.”(21)
Em razão deste pensamento menos tolerante com as democracias liberais o autor será mais condescendente ou menos implacável, com o regime autoritário em vigor no Paraguai e com o seu povo, atribuindo os atrozes sofrimentos impostos ao povo pela guerra, a um presidente que tendo:
“Dotes tão eminentes acham-se, porém, obscurecidos por graves desvios de temperamento. Deve-se lastimar que na cegueira da ignorância, o povo heróico dos guaranis deixa-se imolar sobre um altar que não merecia tão lúgubre holocausto.”(22)
No prólogo de sua obra, von Versem fala o seguinte sobre o Paraguai:
“O Paraguai é um país em que, na qualidade de presidente quase hereditário, López exerce autoridade autocrática, tal como não existe no Brasil. Além disso são muito mais selvagens que o Paraguai essas duas repúblicas, a Argentina e a Oriental, agora coligadas com o Brasil. Contudo ainda ninguém encontrei que me pudesse ensinar exatamente a maneira de penetrar no Paraguai (...) achando-se portanto este país cingido de todos os lados por imensos e intransponíveis territórios de índios e comunicando-se apenas com o mundo civilizado pela estrada pluvial do Paraná (...) Se hoje conhecemos melhor o Paraguai, ninguém deve esquecer que em 1867 era terra incógnita.”(23)
O Paraguai é terra selvagem, mas em menor medida que seus vizinhos, é território desconhecido e apartado pela sua geografia do mundo civilizado, ou seja, da Europa.
Falando da formação das repúblicas platinas o prussiano afirma:
“(...) Ambos, quer Urquiza, quer López, eram verdadeiros caudilhos, aventureiros que, nas condições quase selvagens da América Meridional, a despeito das pomposas constituições federais e estaduais, conseguiram enormes latifúndios, imenso poder e prestígio: foi o que praticaram na Europa durante a idade-média, muitos fidalgos (...)”(24)
Observemos a comparação estabelecida: a “Idade das Trevas” já a muito superada na Europa ainda sobrevivia naquelas paragens da América, López era apenas mais um caudilho agindo como um fidalgo anacrônico
Sobre o governo de Francia, relata:
“Com extraordinária habilidade o dr. Francia conseguiu predominar, passando pouco a pouco de presidente a ditador e senhor absoluto. Ele inaugurou particular sistema de regime autocrático, perseguiu as principais famílias da capital, que lhe inspiravam bem fundados receios, administrou os guaranis com severidade e retidão e isolou o país completamente do mundo (...) Promulgou leis draconianas, obrigou o povo ao trabalho e a obediência (...) Avesso as relações internacionais de qualquer espécie, não permitia no país representantes diplomáticos ou consulares (...) Com o correr dos anos foi-se tornando cada vez mais cruel e sanguinário.”(25)
De modo um pouco mais ameno que Thompson devido a sua formação menos liberal decorrente do pensamento alemão, von Versem também faz a execração da figura de Francia. Quanto a D. Carlos Antônio López seu julgamento não foi diferente:
“... não hesitava em despachar para o outro mundo quem desafiasse sua cólera; não era porém cruel por índole (...) Declarou livre a navegação do Rio Paraguai (...) Permitiu a exportação ... Quanto a importação (...) proibiu que os pagamentos se fizessem em dinheiro ...”(26)
A figura de Solano López, seu “anfitrião e algoz” e a sociedade de seu tempo, é revelada pelo seguinte depoimento:
“(...) coube a D. Francisco Solano López: país florescente, fazenda pública desafogada de ônus, população obediente e dedicada (...) sob esta administração autocrática o povo caminhava regradamente na senda do progresso (...) por seu adiantamento lento e seguro, havia de alcançar a primazia entre as nações sul-americanas (...) tudo chegava ao ouvido d’El Supremo, como chamavam a López (...) A única folha de notícias (...) era redigida pela própria autoridade e servia de instrumento para predispor a opinião pública em favor dos projetos oficiais (...) A Igreja prestava-lhe obediência e dirigia a educação do povo de acordo com os princípios constitutivos da política dominante (...) as crianças não aprendiam geografia; ao paraguaio bastava conhecer o país (...) Aos estrangeiros que não eram de seu agrado vedava o desembarque (...) os poucos que ficavam (...) conservavam-se muito calados e de fato quase nada vinham a saber a respeito do país (...) Os diplomatas eram recebidos com grande distinção (...) mais de uma vez, chegaram a desmentir atos de crueldade que eu tinha presenciado (...) Possuía grande inteligência, muita prudência, infatigável atividade e energia (...) era porém violento e desconfiado (...) As feições do rosto revelam talento, sem disfarçarem temperamento selvagem e extremamente libidinoso”(27)
Extraímos este longo trecho que exemplifica bastante a situação de desafogo e progresso econômico, de subserviência da população e da Igreja ao Estado e do caráter de Solano López, seu temperamento tirânico, selvagem e cruel bem como sua capacidade de dissimular suas verdadeiras intenções aos representantes estrangeiros. Von Versem parece ser um pouco mais ameno que Thompson ao julgar o regime paraguaio, no entanto é igualmente implacável quanto ao seu mau juízo sobre Solano López.
Ainda durante o último período da guerra, em 1869, Von Versem e Thonpsom se conhecem na Argentina enquanto aguardam retorno para seus respectivos países, e vão trocar informações sobre suas estadas no Paraguai durante um largo tempo. Thonpsom, anos mais tarde, através de cartas a Von Versem, lhe descreve minúcias dos acontecimentos do qual participou. Certamente, a opinião do prussiano deve ter sido bem influenciada pelo relacionamento que manteve com o inglês a ponto de em sua obra tentar inocentá-lo, aludindo o caráter compulsório dos trabalhos realizados pelos técnicos estrangeiros residentes no Paraguai. Esta alegação fica constatada com a seguinte passagem:
“Ao romper a guerra, López não deixou partir os engenheiros que tinha contratado para essa construção, mas empregou-os arbitrariamente, quer no levantamento de plantas especiais para fins militares, quer em obras de entrincheiramento”(28)
O julgamento dos dois autores europeus sobre o governo e sociedade paraguaia são bem semelhantes e, muitas vezes complementares. Quando o alemão enaltece os guaranis é comparando-os com as repúblicas vizinhas, as quais ele achava ainda mais selvagens que os paraguaios.
Analisemos agora a obra de um oficial do exército imperial que serviu durante à campanha como engenheiro, o Visconde de Taunay, a sua formação familiar e acadêmica, que nos deixou relatos sobre sua visão dos paraguaios em sua célebre obra; A Retirada da Laguna. Filho de comendador e um dos preceptores de D. Pedro II, neto do lado paterno de um conceituado artista francês que foi um dos fundadores da Academia de Belas Artes do Rio de Janeiro, e do lado materno de um nobre emigrado da França em função da Revolução de 1789. Bacharel em ciências e letras e oficial formado pela Escola Militar como engenheiro, Taunay vai compartilhar intelectualmente com aquelas correntes ideológicas, por nós já descritas, predominantes na intelectualidade brasileira e internacional. Tornar-se emérito escritor e gozava do respeito e reconhecimento de seus pares, tanto civis quanto militares.
Extraímos o texto da dedicatória de sua obra para que se tenha idéia de seu engajamento ideológico:
“A Sua Majestade o Senhor Dom Pedro II Imperador do Brasil: Senhor, Ao se render em Uruguaiana, inaugurou vossa majestade, na América do sul, a guerra humanitária, a que aos prisioneiros poupa e salva, trata feridos inimigos com os desvelos dispensados aos compatriotas (...) a desataviada narrativa da Retirada da Laguna, obra da constância e da disciplina, em que os oficiais de Vossa Majestade (...) jamais cessaram (...) de conter o legítimo desforço de bizarros soldados (...) e obstar à crueldade tradicional de auxiliares índios, vingativos como soem ser.”(29)
Nessa dedicatória ficam patentes dois impulsos deste oficial: o primeiro de legitimar os procedimentos do exército imperial que são exemplos de uma guerra civilizada, a primeira da América do Sul; o segundo de atribuir ao outro, no caso os índios, todas as atrocidades e atos de barbarismo cometidos pelos brasileiros durante a mal sucedida expedição.
Mas não irá barbarizar apenas os índios, irá fazê-lo também em relação ao povo inimigo. Reproduz em sua obra o relato de um religioso brasileiro, Frei Marianno de Begnaia:
“Conduzido prisioneiro da Villa de Miranda pelas forças paraguayas em 1865, fui posto em uma fossa de serpentes e livrado milagrosamente; depois em um rancho descoberto á intempérie, d’hai em uma immensa cloaca d’onde fui conduzido a ser sacrificado no campo de batalha e livrado milagrosamente (...) os verdugos paraguaios me fizeram as crueldades as mais horrorosas.”(30)
Ao contrário do Brasil, ainda segundo Taunay, onde as regras da guerra humanitária eram seguidas, inclusive em relação aos prisioneiros, o inimigo, devido à selvageria de seu povo, fazia ainda uma guerra não civilizada.
Quando da ocupação do povoado fortificado de Bella Vista, relata o seguinte:
“Os auxiliares índios, Guaicurús e Terenas, não foram os últimos a se apresentar para o saque. Tão pequena disposição para o combate (...) Agora se lhes transmutara a indolência num ardor sem limites para o saque.”(31)
Todos os atos de covardia e selvageria eram cometidos pelo outro, os índios, mas nunca pelos brasileiros que, como ele antes alegou, “eram disciplinados pelos seus oficiais”.
As forças paraguaias em sua tentativa para aniquilar os brasileiros em sua retirada atearam fogo ao mato, ou seja, utilizaram os recursos que tinham à sua disposição, Taunay assim interpreta este expediente de guerra: “Algumas balas que lhes despejamos vieram distender a animosidade dos nossos, exasperados pela cruel e covarde tentativa de queimar-nos vivos.”(32)
E segue falando sobre a reocupação de Nioac e da armadilha preparada na Igreja pelos guaranis:
“Para melhor nos enganarem haviam os paraguaios espalhado a pólvora sóbria e desigualmente com o minucioso cuidado, e os cálculos ardilosos do selvagem que prepara seus malefícios.”(33) Para Taunay as táticas de guerra do inimigo não se fazem de acordo com suas possibilidades, e sim de acordo com a índole cruel de seu povo. A barbárie e a selvageria sempre estarão presentes, para o autor, nas atitudes do povo inimigo, eles fazem a guerra contrariando as normas da civilização.
A percepção de Taunay sobre as atitudes dos paraguaios durante a expedição ao Mato-Grosso irá, devido à projeção que ele teve como escritor e intelectual, ser muito profunda sobre boa parte da intelectualidade da época e por muito tempo depois. A expedição punitiva do exército imperial, e a própria guerra, foram uma lição de civilização, mesmo em meio a um conflito armado. Através dos procedimentos do Imperador e de sua oficialidade, o Paraguai estava sendo resgatado de sua condição de país bárbaro e, mesmo à custa da maioria de sua população eles aprenderiam os valores “superiores” de uma sociedade “moderna” – ainda que escravista.
O elo de união entre os autores analisados, é que todos eles pertencem as elites de seus países e, vivem em uma época em que publicações científicas correm todo o mundo civilizado ou pelo menos entre as classes dominantes desse mundo. Pelas suas credenciais, as “verdades” deles sobre o povo guarani serão inquestionavelmente aceitas pela grande maioria da intelectualidade, não só da América, como também da Europa. O Paraguai é terra desconhecida e selvagem e sua cultura, também desconhecida, é bárbara. Mesmo estando de lados opostos no conflito eles comungam da idéia comum, a de que o monstruoso tirano que encabeça um regime cruel deva ser, para o bem da civilização, retirado do poder a todo custo. Para alguns inclusive com o custo da própria sociedade paraguaia que eles, em uma cruzada do século XIX, se diziam ser os salvadores.
Ainda durante o conflito e imediatamente após o mesmo, o Paraguai, ou o que dele restou, passa a ser conhecido pelo mundo civilizado e esses três “propagandistas” que analisamos estarão entre os principais responsáveis pela versão de um “Paraguai Bárbaro”, apresentado ao mundo.
II
O Paraguai Idealizado
A partir do final da década de 60, do século passado, intelectuais de esquerda, passaram a analisar à sociedade paraguaia, no período entre sua independência política e o fim da Guerra Grande (Guerra do Paraguai), sob uma ótica estritamente economicista e de cunho revolucionário, ou seja, relacionando e enquadrando o desenvolvimento da nação guarani dentro de um suposto quadro com forte tendência a uma economia, a princípio, proto-socialista e, posteriormente capitalista, mas sob o controle do estado. Para eles, a estrutura produtiva singular implantada pelos jesuítas no Paraguai, desde à época colonial e continuada, ampliada e remodelada pelos primeiros presidentes-ditadores, que definiram a sociedade guarani, como um modelo de comunismo primitivo, em evolução para um capitalismo de estado, e não fora o desfecho desfavorável da guerra, o teria tornado a maior potência da América Latina.
As obras dos autores que iremos analisar, se relacionam intrinsecamente, na medida que todas buscam uma explicação exterior à sociedade paraguaia para sua derrocada. São sempre fortíssimas pressões externas – exercida pela principal potência capitalista do século XIX, a Inglaterra, e seus vassalos sul americanos, Argentina e Brasil -, o fator responsável para que o Paraguai - por eles idealizado -, não cumprisse o que seria seu “destino manifesto”, de ser o único país realmente independente, dentre as antigas colônias espanholas, e uma potência industrial do cone sul americano.
Autores como León Pomer, Chiavenatto e Vilaboy, deixam claro suas intenções de rever sob uma ótica socialista, a história paraguaia até 1870. Idealizando o Paraguai, como uma poderosa força econômica, política, ideológica e militar, forjada primeiramente pela Companhia de Jesus - e posteriormente por Francia e pelos López -, o que permitiu a existência, embora efêmera, de uma sociedade notavelmente igualitária, onde inexistiam grupos poderosos que pudessem exercer domínio sobre a sociedade ou o Estado. Esse, sem o entrave de oligarquias locais, promoveu um desenvolvimento que tinha por objetivo fundamental, o bem estar social, que seria conseguido através de uma política de crescimento onde o Estado controlava ou era proprietário direto dos meios de produção, olhando com desconfiança e restringindo ao máximo a iniciativa privada, encarando os remanescentes das oligarquias coloniais, como inimigas do Estado e da sociedade.
Os pesquisadores acima citados, bem como sua produção historiográfica, são representativos desta versão de um Paraguai “ideal”, que abria caminho para um capitalismo autoritário, sob forma revolucionária, através da pratica de um socialismo intuitivo e pragmático, fruto de uma síntese entre os ideais iluministas, o despotismo esclarecido e um comunismo primitivo. Seus ditadores serão por eles vistos como tiranos benfazejos, que levaram até as últimas conseqüências – inclusive a liquidação da sociedade guarani –, seus ideais de justiça social.
León Pomer, historiador argentino, fala sobre
“duas linhas antagônicas de pensar a História, descrever a História e conhecer a História. A linha dos que mandam e a linha dos que obedecem ou são obrigados a obedecer.”(1)
Ele faz a opção em sua obra de contar a versão dos vencidos, daqueles que perderam a voz, devido à sua submissão forçada aos que, pela força econômica ou pela força das armas, ou de ambas, estabeleceram seu domínio e calaram os opositores. Entende Pomer que o revisionismo histórico sobre a guerra contra o Paraguai, segundo ele começado pelo ilustre pensador Argentino Alberdi, se reporta a um movimento mais amplo que tem relação com uma nova visão da história.
Será através de uma explicação de cunho econômico que procurará entender as razões que levaram à destruição da sociedade guarani. Afirma categoricamente: “A chave da coisa está na Inglaterra”(2) , ou seja, na expansão do capitalismo imperialista inglês.
Começa seu trabalho descrevendo sobre as necessidades do capitalismo britânico, de como a demanda por matéria-prima, por parte da indústria inglesa, torna o império dependente de fontes de suprimento externas e que, com a guerra civil americana, que durante algum tempo limitou o abastecimento de algodão para suas indústrias têxteis, ficou evidenciada sua fragilidade em relação aos mercados abastecedores. A solução para o problema passava por uma
“tarefa diplomática, (amparada pelo garrote e pela libra esterlina), consistirá em abrir novas fontes de abastecimento, estimulando o cultivo de algodão e cereais onde isso for possível (...) Na Argentina, a oligarquia agro-exportadora não vacilará em reformular toda a economia do país, transformando-a num apêndice da Grã-Bretanha.”(3)
Este esquema explicativo de Pomer, tem seu correspondente brasileiro, em Fernando Antônio Novais – no que se refere à reformulação econômica dos mercados produtores de matéria prima -, que afirma: “O Antigo Sistema Colonial irá sendo afetado, alterado e enfim destruído pelo capitalismo industrial., que organiza sua forma própria de exploração das áreas periféricas.”(4)
Dessas áreas periféricas no sul da América, o Paraguai é a ovelha negra.
“Tal é o Paraguai aos olhos da burguesia inglesa e de outras burguesias européias altamente desenvolvidas, e tal se torna, logo, aos olhos de alguns cavalheiros que no Prata e no Brasil traficam e comerciam com as potências de ultramar ...”(5)
A teia de intrigas para dar um basta ao modelo social guarani, estava sendo tecido longe, na Europa, mas seus tentáculos se estendiam no Prata e no Brasil. O Paraguai fugia às regras da integração capitalista promovida, principalmente pela Inglaterra e seus vassalos americanos, portanto, segundo Pomer, era um empecilho para a plena exploração capitalista na região.
A respeito da construção da sociedade Paraguai, ao tempo de Francia, ele tem a seguinte opinião:
“Gaspar Rodrigues de Frância usou da violência sem se deter diante dos melindres e considerações sociais. Nunca, porém, exerceu a violência contra o povo simples e humilde; suas vítimas foram gente muito importante, (...) detentores de terras (...) importadores de manufaturas (...) exportadores de produtos nativos (...) amigos dos espanhóis, outros dos padres (...) todos porém, mais ou menos corruptos, sem religião, sem moral e sem escrúpulos.”(6)
Sua interpretação das atitudes de Francia são diametralmente opostas daquelas emitidas por seus detratores; ele entende que sua política beneficia a massa da população humilde, em detrimento dos interesses da antiga classe dominante. A preocupação do “ditador perpétuo”, como qualificavam Dom Gaspar, com o povo, fica expressa na seguinte passagem:
“desconfiava dos comerciantes locais e de sua estreita ligação com os portenhos, que por sua vez estavam quase todos associados aos interesses britânicos. Demostrava saber (...) que a entrada franca de mercadorias (...) acabaria provocando (...) interesses diametralmente contrários ao interesse nacional paraguaio. Não restava dúvida que os artesões estariam fadados a morrer de fome, depois que fossem afastados pela concorrência externa. Os camponeses, cedo ou tarde, ver-se-iam obrigados a plantar não o que as necessidades do país exigiam, mas o que era imposto pela demanda do mercado exterior.”(7)
Para o autor, defender os interesses nacionais, que eram os interesses da população, se fazia necessário assentar à economia em bases nacionais, é que se privilegia o desenvolvimento das forças produtivas sob controle do estado e voltada principalmente para o mercado de consumo interno.
Para Francia,
“A economia paraguaia muito incipiente, os recursos do Estado muito minguados e o desejo de se organizar com independência e autonomia eram inconciliáveis com o liberalismo econômico. E sem o liberalismo econômico, garantido pelo poder do estado, era igualmente impensável o liberalismo político...” (8)
Segundo o autor, Francia reconhecia a importância do liberalismo econômico, mas devido as condições objetivas do Paraguai, este devia passar pelo crivo do Estado, que por sua vez, deveria ter suficiente independência política para contrariar os interesses da oligarquia comercial e latifundiária interna, e principalmente, das pressões vindas do exterior, fosse dos portenhos ou dos ingleses.
Voltando novamente à composição social do povo guarani, nos fala León Pomer:
“Frância não pretendia enclausurar sua pátria entre as quatro paredes de seus rios e selvas (...) O fechamento do Paraguai fez com que o país se voltasse sobre si mesmo e se torna-se auto-suficiente. Para tal, Frância se apoiou fundamentalmente nos pequenos e médios camponeses e na dos artesões, classes consideradas de primordial importância, pois não alimentavam objetivamente o mínimo interesse no livre comércio e pela abertura incondicional do país às transações comerciais com a Europa e os Estados Unidos.”(9)
Havia uma estrutura social, formada pelas classes produtivas, herdada desde os tempos de colônia, que foi utilizada por Francia, como o sustentáculo do seu poder, por ser aquela isenta de interesses conflitantes com o modelo desenvolvimentista adotado pelo ditador.
Para o historiador argentino, Francia soube ser ao mesmo tempo, o ditador benévolo para o povo e o carrasco dos remanescentes das elites coloniais, alguém que governava para o povo, mas reservava para si, as decisões sobre o que era melhor para a nação guarani. Foi revolucionário em suas atitudes de resguardar o Paraguai da cobiça do capitalismo internacional.
O sucessor de Francia, Carlos Antônio López, dará ênfase ao setor estatal da economia, irá nacionalizar as plantações de erva-mate e os bosques que produzem madeiras para produção, proíbe aos estrangeiros a aquisição de terras, ao mesmo tempo que promove o desenvolvimento técnico do Paraguai. Nas palavras de Pomer
“Em 1854 (...) tomam-se providências para a implantação, em Ibicuy, de fundição para o tratamento de carvão (...) De Ibicuy sairão implementos agrícolas para a lavoura, armas para o exército e utensílios diversos (...) Em 1848 as terras comunais dos índios passam para as mãos do Estado e as antigas comunidades indígenas desaparecem (...) Em 1855 funda-se o Arsenal de Assunção. (...) O capital é estatal e está a serviço do país. Constróem-se ali barcos a vela e a vapor (...) Mais ainda; começa-se a construção de estradas de ferro, telégrafos, fábricas de papel e de pólvora, de louças, de tintas e de enxofre (...) se extrai salitre e se exploram jazidas de cal. Os técnicos são trazidos do exterior, sempre, porém a serviço do interesse nacional. É o Estado que determina sua política de desenvolvimento (...) E o país cresce com uma burguesia quase escassa (...) O Estado a substitui em seu papel, não porém para usurpar riquezas ou desenvolver, apenas aqueles setores da economia que interessam as potências centrais (...) Na América é caso único e singular ir contra a corrente e levar adiante, por iniciativa própria, com as próprias forças, uma tendência que os “países dominantes” estão implantando no mundo inteiro.”(10)
Segundo o autor, o Paraguai faz sua revolução burguesa sob a iniciativa e o rígido controle do Estado, esse acelera suas forças produtivas sem antagonizar capital e trabalho, já que o capital que promove o desenvolvimento pertence ao Estado e esse pertence ao povo, ou pelo menos governa em seu benefício.
Francisco Solano López é visto como continuador da notável política econômica dos seus antecessores, ampliando e aprofundando as atividades econômicas existentes e criando novas, mas sempre dentro do mesmo espírito de preservação da autonomia nacional. Nessa época
“Pessoas que fazem descobertas úteis ou introduzem melhorias significativas na indústria ou na agricultura gozam de regalias especiais (...) Jovens do Paraguai vão estudar na Europa com bolsas do Estado. De lá também chegam engenheiros, técnicos, homens de ciência contratados pelo Estado.”(11)
A política do jovem López, seguindo a tradição criada por Francia, acomoda um desenvolvimento material com a centralização estatal, amplia a emergente burguesia rural e urbana, que vem tomando certo vulto desde o tempo de seu pai, e afina os laços internacionais entre o Paraguai e as principais potências européias e os EUA.
Apesar da lenta, mas firme, inserção do Paraguai no âmbito das relações políticas e econômicas do mundo burguês, a nação corre riscos
“O Paraguai não é um paraíso nem mesmo um país moderno e desenvolvido. Quem, porém, não reconhece a importância à fundição de Ibicuy e a outras iniciativas em andamento (...) O exemplo paraguaio vai se tornando intolerável.(12)
Com essa afirmativa, Pomer entende que quanto mais a “política econômica” dos governantes guaranis se aproximam do modelo capitalista internacional, cria-se um perigo à própria estabilidade e sobrevivência da nação. O Paraguai, apesar de ser um modelo de civilização a ser seguido, é mau visto pelas elites internacionais, que de forma indireta auxiliam seu desenvolvimento. O “socialismo guarani” assusta aqueles interessados em espoliar a florescente república.
Julio José Chiavenatto, jornalista e historiador brasileiro, em sua bombástica obra “Genocídio Americano: A Guerra do Paraguai”, endossa e aprofunda o pensamento de León Pomer. Tal como ele, preocupa-se em desmontar os mitos criados pela “história oficial”, e da mesma forma que o argentino, cria outro mito, o “Paraguai Idealizado”.
Quanto ao governo de Francia, afirma o seguinte:
“Francia, El Supremo, assume o poder e exerce um a ditadura peculiar: usa o absolutismo como método de governo em benefício do povo (...) persegue os ricos, confisca propriedades e torna insuportável a vida dos oligarcas ...”(13)
e prossegue,
“José Gaspar Rodriguez de Francia é um homem exótico. Implacável na perseguição de seus inimigos, ele praticamente fundou o Paraguai (...) Seu primeiro ato ao assumir foi acabar com a influência do poder econômico (...) Decreta, poderia se dizer, a pobreza como norma de vida dos paraguaios (...) Nos cárceres, não existem pobres: são os ricos, a chamada “classe esclarecida”, que poderiam voltar-se contra Francia, que estão presos (...) El supremo não ataca os ricos apenas para garantir a segurança de seu governo, que será “perpétuo” (...) Ele quer exterminar - e consegue – qualquer privilégio especial no Paraguai. O único privilégio possível é o seu: de governo austero e simples, quase patriarcal, em favor do povo”(14)
Para Chiavenatto, Francia é o verdadeiro criador da “política econômica”, implementada no Paraguai independente, e seguida pelos seus sucessores. Existe um projeto pelo qual, uma vez eliminada a influência dos remanescentes das oligarquias coloniais, os esforços do governo paraguaio, por ele representado, serão dirigidos em favor do povo. Esse verifica com o tempo, que o absolutismo é dirigido somente contra os ricos, e que nada tem a temer do ditador. A população acostumada ao rigor dos jesuítas abominam o luxo, Francia, que vive austeramente, ganha a confiança popular.
Em relação à tão controvertida decisão de isolar o país ao comércio e as relações exteriores, utilizada pelos historiadores para atacar Francia, Chiavenatto diz não corresponder rigorosamente à verdade, e explica os motivos de tal decisão:
“O Paraguai é um país mediterrâneo que não tem saída própria para o mar. Para exportar sua produção (...) ele precisava da livre navegação dos rios (...) Pensando nisso o governo (...) faz um acordo com Buenos Aires em 1811, para facilitar a saída de seus produtos. Buenos Aires porém não o cumpre (...) ainda cria um imposto adicional sobre os seus produtos (...) O gado paraguaio já não pode passar pelas províncias vizinhas (...) Essas pressões contra o Paraguai obrigam Francia a um contato direto com a Inglaterra (...) Ele tenta obter a navegação para seus barcos (...) junto ao representante inglês em Buenos Aires (...) Mas Buenos Aires é implacável no bloqueio (...) Lutar contra Buenos Aires e as demais províncias é, também, enfrentar as normas aceitas pela Inglaterra para o comércio internacional nessa área”(15)
Esta passagem demostra que isolamento ao tempo de Francia, na verdade, foi devido às condições de pressão externa; o governo paraguaio se empenhou em estabelecer relações com seus vizinhos, e mesmo com a Inglaterra, mas não a qualquer custo, ou seja, à sua soberania.
Quanto as condições da população guarani, neste período, nos conta Chiavenatto:
“Através do confisco ou de compras a baixo preço, o governo adquire e distribui terra aos camponeses paraguaios - – arrendando-as a custo irrisório – (...) Além disso, estipulou normas para o comércio de tal forma, que a nação não se estiolasse pelo fechamento das suas fronteiras (...) Francia criou as “Estâncias da Pátria”, onde os trabalhadores do campo produziam com o auxilio do Estado (...) Todos trabalhavam em comunidade (...) Enquanto ainda havia meios de exportar (...) todo o comércio exterior foi feito através do Estado.”(16)
Os meios de produção sob o controle do Estado, e a restauração e intensificação do trabalho comunitário – herança das missões jesuíticas –, são as bases utilizadas para a criação do mito da existência de uma sociedade socialista na América do século XIX. Ao mesmo tempo, esses argumentos servem de resposta para aqueles que haviam “barbarizado” o Paraguai.
Na época de Carlos Antônio López, o autor entende que houve significativos avanços sociais, muitos desses avanços herdados do governante anterior. Ele se impressiona com a quantidade de escolas em proporção à população, e afirma que quase todos os paraguaios eram alfabetizados
“Existiam naquele tempo, para uma população de menos de quatrocentos mil habitantes, quatrocentas e trinta e duas escolas com vinte e quatro mil alunos (...) Mais significativo que isto, porém, é que toda uma estrutura sócio-econômica atendendo plenamente aos interesses populares está livre de burocratas, cortesões e os parasitas do gênero: no Paraguai só existe trabalho genuinamente produtivo. “(17)
Não é ressaltado pelo autor o fato de que a população é formada por alfabetizados funcionais, que reproduzem automaticamente, sem questionar, as normas do governo. Não existe participação política, nem mesmo alternativas políticas no campo teórico, já que os raros periódicos existentes estão sob os cuidados do governo, que os utiliza como meio de propaganda oficial. A ideologia para os ditadores guaranis, tem de ser monolítica, não se aceitando qualquer tipo de discordância.
Carlos Antônio López, originário de família católica e formado em direito, vai modernizar o sistema econômico herdado de Francia. Ele se vê internacionalmente agredido na medida em que obtém sucesso.
“(...) o pequenino Paraguai começa a quebrar toda uma sistemática política e econômica quando planeja sua emancipação nacional a revelia dos métodos ingleses, aplicados sem melindres nacionalistas nas províncias argentinas e no Império do Brasil.”(18)
Ao contrário de seus vizinhos, o Paraguai vai promover seu progresso sem precisar de um tostão inglês. De modo simples, trazendo do exterior os técnicos necessários para implantar sua base industrial, López cria “uma infra-estrutura básica de desenvolvimento industrial e cultural.”(19) Esta é a base da argumentação de Chiavenatto, para a origem do intervencionismo britânico no Paraguai. Segundo ele, o capitalismo inglês, segue uma lógica implacável, que não se contenta apenas em obter matéria-prima a baixos preços e vender manufaturados com altíssimos lucros, ele necessita controlar seus mercados produtores/consumidores. O paradoxal em sua afirmação é de que um império como o inglês, que sobrevive do comércio internacional de mercadorias e tem como método, para isto, nesse momento, inclusive a eventual a transferência de tecnologia para formar mercados consumidores nas áreas periférica, engendrar a destruição de um de seus parceiros, como explica Hobwbawm.
“Em primeiro lugar, a expansão geral do comércio mundial, que era realmente muito espetacular comparado ao período de antes de 1840, beneficiou a todos, mesmo que beneficiasse desproporcionalmente à Inglaterra. (...) Se alguns interesses específicos pudessem ser afetados de forma adversa, havia outros que a liberalização compensava. (...) nesta etapa de industrialização a vantagem de poder utilizar o equipamento, as fontes de Know-how da Inglaterra era bastante útil. (...) o ferro para as estradas de ferro e maquinaria, cujas exportações aumentaram na Inglaterra, não inibiu a industrialização de outros países mas, pelo contrário, facilitou-a.(...) A presença de estradas de ferro e, numa escala menor, máquinas a vapor, introduzia então o poder mecânico em todos os continentes e em países não-industrializados.”(20)
No entanto, o Brasil, que adotou medidas muito mais danosas para à Inglaterra, que o Paraguai, e teve inclusive créditos negados pelos britânicos, além da animosidade entre os dois governos devido ao tráfico escravista, não sofreu grandes retaliações por parte da Grã-Bretanha, como lembra Caio Prado Júnior
“Em 1844, no auge do descalabro financeiro, e sem a possibilidade sequer do recurso a empréstimos exteriores, uma vez que nosso grande prestamista, a Inglaterra, nos fechava as portas, o governo imperial resolve decretar novas pautas alfandegárias mais elevadas (...) Era-lhe perfeitamente lícito uma modificação qualquer das tarifas (...) O que não impedirá que a Inglaterra proteste energicamente. Mas o estado das relações com o Brasil era tal , e tamanha a hostilidade que levantava a abusiva ação de seus cruzeiros contra o tráfico africano, que a intervenção foi ineficaz.”(21)
Apesar do deteriorado estado das relações entre os impérios do Brasil e da Inglaterra, essa não tramava a destruição do império escravista. Isto constata que a “lógica implacável” de intervenção a qualquer custo nas áreas periféricas não partia do capitalismo inglês e sim do próprio pensamento de Chiavenatto que leva ao extremo à afirmação de Novais, anteriormente citada.
Mas como os governos paraguaios, tão clarividentes em questões de política interna, não foram capazes, nem de longe, de suspeitar da trama internacional de seus vizinhos, orquestrados pela Inglaterra, em destruir sua soberania? Chiavenatto justifica essa miopia sobre questões internacionais à não existência de uma classe dirigente no Paraguai. As causas para que, tanto Francia como López, não terem formado uma classe dirigente são atribuídas à razões históricas.
“A incompreensão de Carlos Antônio López dessa conjuntura trágica está diretamente ligada à incapacidade de Francia, e depois dele próprio, de criar paralelamente a um Estado popular, uma classe dirigente capaz de interpretar prospectivamente a realidade de seu tempo. Rigorosamente, não se pode dizer que foi um “erro” de Carlos Antônio López ou de Francia: na verdade razões históricas impediram o surgimento de uma classe dirigente identificada identificada com o nacionalismo popular do Paraguai.”(22)
A estranheza nessa declaração é que, em um país onde a população era majoritariamente alfabetizada e voltada em sua quase totalidade aos interesses nacionais, não houvesse no mínimo uma burocracia estatal, proveniente do povo, que fosse capaz de auxiliar o governo em assuntos dos quais dependiam à sobrevivência da nação. Não estaria o modelo sócio-econômico paraguaio mais próximo a um modo peculiar de dominação que a um proto-socialismo alardeado pelos autores analisados?
Ao assumir o governo em 1862, Francisco Solano López, que desde os quatorze anos participava gradualmente dos problemas governamentais, aos dezoito era general em chefe do exército e, anos mais tarde completa sua formação de estadista com visitas a diversos países europeus. Freqüentou durante meses a corte de Napoleão III e foi recebido pessoalmente pela rainha Vitória. Estava portanto, preparado para substituir seu falecido pai. O autor desvincula a figura do “filho do presidente” aos privilégios que esse tem como tal. E coloca que, em sua viagem ao exterior, Solano López não traz apenas sua companheira, Elisa Alice Lynch, também irá trazer ao seu país técnicos e cientistas para estimular e aperfeiçoar o progresso do país, dando continuidade aos métodos do “velho López” de desenvolver a nação e manter o equilíbrio do Prata.
Sobre a população guarani ele levanta dados interessantes, corroborados por cientistas estrangeiros, para demostrar sua superioridade cultural, de cidadania e até mesmo física, particularmente em relação aos brasileiros, sobre seus vizinhos.
“Até o começo da guerra não se conheciam loucos ou suicidas no Paraguai – segundo o testemunho de alguns cientistas. Além disso a coesão cultural preservada desde os tempos dos jesuítas era outro fator importante. Era comum (...) cada paraguaio Ter quatro ou cinco profissões, que exercia de acordo com as circunstâncias. Assim um so paraguaio podia ser sapateiro, carpinteiro, alfaiate, mecânico e até mesmo arquiteto ou músico. Isso não era nenhum “milagre”; apenas a decorrência do cultivo do que os jesuítas ensinaram e da política educacional – não se deve esquecer que na morte de Francia, em 1840, já não existiam analfabetos no país.”(23)
Quanto à superioridade física dos paraguaios afirma:
“(...) pode-se afirmar com segurança que a altura média do soldado paraguaio era de um metro e setenta e dois centímetros, contra um metro e sessenta e dois centímetros dos soldados brasileiros (...) a excelente alimentação tradicional dos paraguaios (...) essa alimentação bem equilibrada era conseguida com pouco trabalho (...) Dermersay, por exemplo, chegava ao ponto de afirmar que o Paraguai era um dos países onde o povo melhor se alimentava no mundo todo.”(24)
Falando da consciência de cidadania paraguaia temos o seguinte:
“Todo cidadão é soldado, e como não há um cidadão que não seja proprietário de um terreno cultivado por ele e sua família, cada soldado defende seu próprio interesse e o bem estar de sua família, na defesa do país ...”(25)
Chiavenatto parece fazer uma inversão em relação aos autores que barbarizam o Paraguai, ele tem a clara preocupação de mitificar a sociedade guarani, ressaltando sua superioridade, em diversos aspectos, sobre brasileiros, argentinos e uruguaios, colocando-a inclusive, em pé de igualdade, em relação à países europeus.
No entanto, para o autor, apesar da comprovada civilização dessa sociedade, ela esta fadada à destruição, é o seu grande desenvolvimento econômico social e cultural que irá destruí-lo. A partir do momento em que fica claro para a Inglaterra, e seus submissos parceiros sul-americanos, que o Paraguai esta firmemente desenvolvendo uma forte economia autônoma, seu destino esta selado.
“A guerra, portanto, determinou-se fatal já em 1850 quando o Paraguai começou a desenvolver uma forte economia autônoma (...) Seria cumprido um destino historicamente delineado: a) destruir o Paraguai porque era um país progressista com uma economia autônoma; b) garantir o equilíbrio econômico no Plata, defendido pelos representantes do imperialismo inglês; c) salvar o Império brasileiro e as províncias argentinas da desagregação, para que o domínio britânico não sofresse solução de continuidade ...”(26)
Para Chiavenatto, como para Pomer, “A chave da coisa esta na Inglaterra”.
Vejamos agora outro autor, este cubano, que como os demais tem formação fortemente marxista e compartilha das mesmas opiniões do brasileiro e do argentino, em relação ao assunto.
Sergio Guerra Vilaboy radicaliza a idealização do modelo paraguaio da época analisada, com a seguinte citação:
“En el Paraguay las masas campesinas pudieron llevar adelante los avanzados proyetos democráticos de la corriente radical rioplatense (...) abriendo el camino al avance capitalista por la vía que Lenin llamó revolucionaria. Así se convirtío en lá única nación latinoamericana que las grandes potencias industriales –y las fuerzas sociales aliadas en el plano interno- no lograron deformar hasta que en 1870”(27)
Ele atribui relevada importância à participação das massa campesinas no processo de independência, e lhes dá o papel de sustentáculo da criação e consolidação do modelo sócio-econômico projetado e implantado por Francia, na primeira etapa do Paraguai independente. No seu entender, Francia adota uma política “jacobina”, ao radicalizar o movimento separatista em 1811. Os segmentos da população não alinhados com os interesses da elite exportadora, contribuem em grande medida, para que Francia adote suas medidas nacionalistas, e constituem a base social fundamental da ditadura popular. Fala de uma incipiente pequena burguesia agrária, composta por médios e pequenos proprietários que, juntamente com os peões agrícolas, artesãos e pequenos comerciantes, estão voltados para os interesses nacionais, e desprezam os grandes proprietários e comerciantes que tem seus interesses voltados para o mercado externo e lhes são uma constante ameaça, por cobiçar suas terras e lhes tirar os meios de sobrevivência.
Essas afirmações de Vilaboy ficam bem elucidadas no seguinte trecho de sua obra:
“En el panorama socio-político del Paraguay existían otros intereses de clase (...) que estaban llamados a desempenãr un importantísimo papel en el proceso independentista paraguayo, y que contribuyeron en gran medida a la radicalización del moviniento separatista. Este grupo social intermedio, que pudiéramos catalogar de incipiente pequeña burguesia, se hallaba compuesto por propietarios medios o pequeños –llamados chacreros- (...) Más adelante, al desarrollarse el proceso, los pequeños propietarios rurales (...) constituyeron la base social fundamental de la Dictadura. Los campesinos se hallaban identificados com las masas trabajadoras, com los peones agrícolas, artesanos, comerciantes al menudeo (...) Para los chacreros era imprescindible la erradicacíon del monopolio español, pero era también sumamente necessario asegurar la protección a la pequeña propiedad, amenazada constantemente por la voracidad de los latifundistas. Por otro lado, pretendían conservar las artesanías locales, que habian florecido (...) y ahora corrían el peligro de desaparecer, en virtud de la libre irrupción de manufacturas foráneas. Por tales motivos, los pequeños propietarios lograron coordinar sus acciones com los peones agrícolas y demás grupos sociales explotados, que componían la base principal de la sociedad paraguaya.”(28)
Havia, no entender de Vilaboy, quando da emancipação política paraguaia, não só uma pequena burguesia agrária, como também, uma consciência de classe, tanto por parte dessa burguesia como por parte dos outros setores explorados da população. As idéias de Francia, expostas no Congresso de Vizinhos – uma assembléia dos representantes (deputados) regionais -, se converteu no programa político dos partidários da independência absoluta do Paraguai e do modo de pensar e sentir da nascente burguesia e dos camponeses. Apesar do apoio popular, a antiga oligarquia conseguiu, no início, manter-se parcialmente no poder, mas, com grande agudeza política, Francia, após algum tempo, aproveitando-se das contradições entre Buenos Aires e a elite crioula de Assunção, consegue relativo apoio desta, e faz prevalecer seu projeto independentista.
O que há de novo, na interpretação do cubano, em relação aos autores que compartilham seu pensamento, é a questão da ascensão de Francia ao poder. Para Pomer e Chiavenatto, Francia é um personagem obscuro na política assuncena, que passa a compor o governo independente e, de modo não esclarecido por eles, se impõe como ditador absoluto. Vilaboy, recupera a figura de Francia como um intelectual combativo e de prestígio ainda no período colonial e que consegue impor-se no poder como resultado de uma luta de classes, entre os crioulos – grandes comerciantes e latifundiários -, e a pequena burguesia camponesa associada a artesãos e outros segmentos dos trabalhadores. Durante a disputa, o futuro ditador, é suficientemente habilidoso para impor seu projeto de governo à elite, com o apoio do povo.
Uma vez no poder, afirma Vilaboy, prepara-se para enfrentar a contenda classista que se avizinhava. Ao mesmo tempo que protege a manufatura e produtos nacionais, decreta o monopólio das exportações, promove a reforma da capital e torna mais eficaz as oficinas públicas; ataca os interesses dos realistas e portenhistas e promulga leis contra a grande propriedade e privilégios da Igreja. Enfim, coloca em prática seu projeto político que corresponde às aspirações do povo. Podemos verificar essas afirmativas através do seguinte trecho:
“Instalado Francia en la antigua Casa de los Gobernadores, se dispuso a preparar las condiciones para la contenda clasista que se avizoraba (...) Com esse fin, el flamante dictador creó un cuerpo especial de seguridad (...) integrado por hombres escogidos entre las clases populares (...) Se impulsaron medidas y aranceles protecionistas, en favor de las artesánias y producciones nacionales (...) También fue decretada outra importante medida económica: el monopolio de las exportaciones (...) Francia se ocupó también del trazado, modernización y urbanización de la capital. Demolió algumas casas, “casualmente” aquellas que pertenecíon a los latifundistas, sus enemigos políticos (...) Por outro lado, “el peculado, la holgazanería y la ineficiencia tuvieron que desaparecer de todas las oficinas públicas del Paraguay. (...) se dictaron las leyes contra las grandes propiedades y privilegios de la Iglesia católica.”(29)
As medidas tomadas por Francia contra a base econômica das classes privilegiadas ainda eram insuficientes para desmontar o poder das antigas e consolidadas oligarquias. Era preciso também, se necessário, destruí-las fisicamente.
“La incipiente pequeña burguesía rural y las clases trabajadoras sólo podían mantener el poder político si reprimían fuertemente a los antiguos explotadores, mediante la dictadura revolucuonaria. (...) Fue este período de “terror jacobino” (...)” (30)
É a partir desse momento, que a historiografia burguesa constrói o mito do “ditador sanguinário” atribuído à Francia,, segundo Vilaboy, desprestigiando a luta revolucionária do povo paraguaio
Uma vez aniquilada a oligarquia paraguaia, afirma o autor, o ditador pode entregar-se por completo a tomar medidas que beneficiam o campesinato e desenvolvem à economia em todos os seus setores, libertando o país de qualquer dependência externa. Cabe destacar por último, o esforço realizado no campo da educação. O ensino elementar tornou-se obrigatório até a idade dos quatorze anos, debaixo de uma disciplina militar.
Resumindo a “Era Francia”, ou de “El Supremo”, Vilaboy recorre às obras de historiadores marxistas como Kossok e Alpperovich, e a historiadores ditos progressistas como Alan White que, em síntese, resumem da seguinte maneira este período da história paraguaia:
“Com estos trabajos há quedado demostrado que gobierno del Dictador Supremo –como suele denominarse al doctor Francia-, fue un régimen radical, calificado por algunos de “jacobino”,que expulsó del poder a la oligarquia exportadora criolla y a la burocracia peninsular, y que estabeleció un férreo contro estatal sobre el comercio y la economia, impidiendo la libre penetración del capital y las manufacturas extranjeras y garantizó, por encima de todo, la soberania nacional. Francia, además, expropió los bienes de muchos grandes estancieros y de la Iglesia; las tierras arrebatadas a los latifundistas y al clero fueron repartidas entre los campesinos desposeídos o se integraron en las Estancias de la Patria, fundos agropecuarios del Estado.”(31)
O autor cubano segue, em termos gerais, a linha de pensamento dos autores de esquerda já apresentados, com a diferença de introduzir em sua explicação, a luta de classes ocorrida quando da subida de Francia ao poder, que não foi levada em conta pelos outros autores, que se detiveram mais na personalidade carismática e pragmática do ditador, para explicar o processo de emancipação política do Paraguai.
Carlos Antonio López, substitui a Francia, após ser eleito como cônsul, por uma assembléia convocada depois do falecimento desse. Em outra assembléia, da qual participam 500 deputados, ele se impõe no governo, afastando o outro cônsul, por manobras políticas que não foram bem elucidadas. Vilaboy afirma apenas que López fez crer aos partidários de Francia que ele foi designado por El supremo como seu sucessor, em detrimento ao candidato considerado o continuador da obra de Francia. Posteriormente, ele irá rejeitar medidas por demais liberais por parte de alguns deputados, o que demostra ainda haver uma disputa, se bem que mais amena, sobre os rumos da política guarani.
“En el Congresso de 1841, donde López fue elegido Cónsul, los partidarios de Francia llevaban de candidato a un antiguo delegado de Misiones, nombrado Norberto Ortellado, destinado, según decían, “a proseguir las tradiciones del Dictador”. Los partidarios de Carlos Antonio se las arreglaron para hacer creer a los campesinos que el supremo había señalado a López como sucessor.”(32)
Sua política, para Vilaboy, é voltada para facilitar a exportação dos excedentes agropecuários e dar início a certa liberalização, voltada a diminuir o poderio do Estado, estabelecendo vários princípios característicos de uma república burguesa em maturação. Reforma o sistema de arrecadação tributária, altera o regulamento das aduanas, restabelece o comércio com Corrientes, liberta os presos políticos, concede naturalização aos estrangeiros que moram no Paraguai, elimina formalmente a escravidão e reata as relações com o Vaticano.
No nosso entender, o cubano tenta demostrar o avanço de procedimentos concernentes à um regime burguês, por parte da nova administração. Não que haja uma ruptura no essencial, mas López necessita do reconhecimento do estado paraguaio por parte da comunidade internacional, e para tanto, precisa quebrar o isolamento em que se encontra a nação, e demostrar ao mundo “civilizado”, que o Paraguai não é um país retrógrado, governado por sanguinários ditadores alheios às mais básicas regras da civilização.
“La carta, aprobada en la convencíon, fue outra clara muestra de que se optaba de forma consciente por el desarrolo capitalista, aun cuando dicho modo de produccíon se encontraba lejos de estar plenamente arraigado. La Ley Fundamental de la República también evidenciaba que las amenazas que pendían sobre la soberanía nacional (...) iban alejando a López de las veleidades descentralizadoras com había iniciado su administración y que marchaba de una manera decidida, al reforzamiento del poder ejecutivo y del Estado (...) López rechazó tajantemente un audaz proyecto para liquidar el poderio estatal (...) La indignación popular frente a esos planteamientos fue en realidad grande.”(33)
Fazendo um balanço da época de Carlos López, Vilaboy deixa claro duas questões que são fundamentais para entender a análise do autor em relação ao seu governo. A primeira, se refere à comparação com o “jacobinismo” de Francia, que López abandona por completo e, onde se vê, o crescente aburguesamento das classes dominantes da qual faziam parte: a família presidencial, a alta hierarquia eclesiástica, os militares de alta patente e alguns destacados comerciantes. A segunda, diz respeito a afirmação da supremacia estatal sobre as atividades produtivas, com o apoio popular e do exército – uma força que gradualmente vai se impondo como um dos alicerces do poder desde os tempos de Francia, a ponto desse afirmar antes de falecer: “No tengo que hacer disposiciones, Mis herderos son mis soldados”(34) . Isso permite uma modalidade precoce de um capitalismo autoritário, que se converteu em uma formidável alavanca impulsionadora do desenvolvimento nacional, em função da acumulação de capital estatal.
Ao suceder seu pai na chefia do governo, Francisco Solano López era popular entre o campesinato e entre os soldados – foi o grande organizador do exército - e continua a adotar a política de seus antecessores. Sofreu apenas uma fraca oposição ao alçar o poder, mas esta teve um caráter diferente, foi uma luta entre ele e seu irmão pela sucessão, onde não havia distanciamento ideológico entre os partidários de ambos.
No plano externo, no entanto, as coisas tornavam-se mais difíceis de administrar. O desenvolvimento paraguaio, independente do capital estrangeiro, acirra as contradições com seus poderosos vizinhos e com o nascente imperialismo inglês, afirma Vilaboy. No Brasil, assume o poder o partido liberal, menos propenso à conciliação que os conservadores. O novo gabinete imperial via no Paraguai um péssimo exemplo, de um país que não aceitava as relações comerciais desiguais, que impunham os capitalistas ingleses às demais nações da América Latina. Na Argentina, a oligarquia aduaneira – grandes comerciantes voltados para a o mercado externo - ligada a Buenos Aires, elevada recentemente ao poder, perseguia a destruição do regime paraguaio para consolidar o próprio estado Argentino, com a aliança do capital britânico. Pelas razões apontadas, Brasil e Argentina colocam de lado suas velhas rivalidades e se aliam, debaixo da benevolência inglesa, contra os guaranis. Os interesses do Brasil, Argentina e Inglaterra, graças às gestões da diplomacia londrina, afirma o autor, se aliam em um pacto que previa uma guerra de extermínio, que permitiria a repartição da nação guarani. Essas afirmativas ficam claras nestas palavras de Vilaboy:
“En el acuerdo se preveía una guerra de extermínio que permitiera el reparto de la antigua tierra guaraní, la desarticulación del área estatal de la economía y la apertura del país al comercio y los capitales británicos. Junto a esos objetivos generales, el Brasil se proponía reasjustar sus fronteras, mientras Buenos Aires pretendía buscar un médio que facilitara el sentimiento definitivo de la rebeldia de las provincias, y, de ser posible, la anexíon del Paraguay. El Tratado satisfizo las ambiciones de todos los intereses, sin que Gran Bretaña apareciera directamente mezclada en la riesgosa aventura.”(35)
Se compararmos essa avaliação sobre as causas da destruição da sociedade paraguaia com as respectivas avaliações de Pomer e Chuavenatto, veremos que, para Vilaboy, existe uma inversão quanto à ordem de interesses para à formação da alinça contra o Paraguai. Ao seu ver, são os “poderosos vizinhos” que fornecem os motivos para que o imperialismo britânico, através de sua diplomacia, se aproveite da conjuntura favorável, para ampliar seus negócios sobre a política e economicamente independente nação paraguaia.
Esclarecidas as diferenças de interpretação entre os autores, fica patente que todos tem um objetivo comum, que é a denúncia dos efeitos catastróficos da expansão do capitalismo imperialista sobre os países sul-americanos. Partindo da análise da singular estrutura econômica existente no Paraguai, entre 1811 e 1870, para entender a construção daquela peculiar sociedade, tentam enquadrá-la dentro de uma mecânica que leva à sua idealização. Esta construção se faz necessária dentro de uma lógica que permeia os intelectuais de esquerda, em um contexto de Guerra Fria. As agressões promovidas nesse momento – o da Guerra Fria - pelo imperialismo americano e seus aliados – que tem a Inglaterra como aliado incondicional -, tem suas origens aqui na América desde o século XIX, e o Paraguai é um símbolo de resistência. O seu avanço econômico-social independente, fugindo às regras do jogo capitalista, serve de exemplo para demostrar a possibilidade e o perigo de uma nação, sem recursos, lançar-se nos caminhos do progresso, desde que guiado por uma política voltadas para os interesses da população.
III
Uma terceira via explicativa sobre o objeto de estudo
“... Se é incontestável que o preconceito de superioridade é um obstáculo na via do conhecimento, é necessário também admitir que o preconceito de igualdade é um obstáculo ainda maior, pois consiste em identificar, pura e simplesmente, o outro a seu próprio “ideal do eu”(ou a seu eu).”
Tzvetan Todorov – A Conquista da América.
Começamos este capítulo com uma citação de Todorov, do qual utilizaremos seu conceito sobre alteridade(*) como nosso guia na difícil tarefa de tentar compreender a formação ideológica da sociedade paraguaia e os motivos de sua destruição, desde sua independência da Espanha e do Vice-Reinado do Rio da Prata em 1811, até fim da Guerra Grande em 1870.
Buscamos essa linha de interpretação motivados pela necessidade de procurar um conjunto de fatores endógenos e ideológicos à sociedade paraguaia, para envolve-lá em uma aventura guerreira que levou à sua destruição física e cultural. Tentaremos em nossa análise não só “entrar” no imaginário das elites dominantes do país, como também, na do seu povo.
Continuamos a abordar o período entre 1811 e 1870, a unidade de espaço da Bacia do Prata – Paraná, Paraguai e Uruguai – e a unidade de ação a percepção que os guaranis tem de si mesmos e dos povos vizinhos. As razões da escolha: o encontro dos paraguaios com seus vizinhos, com o outro exterior, deve-se à procura do entendimento do porque aconteceu o que classificamos de segundo genocídio dos guaranis, ou seja, de como após o massacre provocado pelos colonizadores – portugueses e espanhóis - e a aculturação feita pelos jesuítas, os guaranis serão novamente aculturados e massacrados, num segundo e derradeiro embate com o mundo exterior. Na medida das necessidades falaremos da percepção do “outro” em relação aos guaranis, e da descoberta do Paraguai pelo “mundo civilizado”.
Conforme formos reconstruindo o imaginário das classes sociais que compunham a sociedade guarani, exporemos os mitos criados tanto por aqueles que barbarizaram essa sociedade quanto daqueles que a idealizaram. Procuraremos recuperar a imagem de um Paraguai, que se movia diante de si mesmo e do “resto do mundo”, de acordo com motivações intrínsecas às necessidades dos grupos que compunham seu tecido social.
A título de introdução, citaremos a posição de alguns autores sobre a aculturação da nação guarani durante o período colonial, e mais especificamente, daquelas populações que estavam geograficamente situadas na região da bacia do Prata.
Boris Fausto afirma em sua obra que Pombal acusava a Companhia de Jesus de manter “um Estado dentro do Estado”.(1) Lugon determina a localização geográfica e a organização política da República Guarani:
“As localidades acham-se concentradas, a partir dêsse ponto, (...) entre os dois rios – Entre-Rios – quer para oeste, na margem direita do Paraná, quer ainda para o sul, na margem esquerda do Uruguai (...) A República Guarani ia do 32o ao 24o (paralelos), cobria um comprimento de 650 quilômetros de sul a norte e cêrca de 600 quilômetros de este a oeste (...) a democracia guarani (...) era mais real do que as nossas democracias burguesas (...) É pelas eleições e pelo exercício das funções públicas que os guaranis adquirem um sentimento tão vivo de sua autonomia nacional e de sua responsabilidade em face do bem comum (...) Unicamente graças à influência de sua devoção e de suas capacidades, os jesuítas conservavam pacificamente até a sua partida o controle do organismo por eles criado. Exerciam o direito de veto (...) sempre os índios recorriam a eles como à autoridade reconhecida por todos e indiscutida.”(2)
No nosso entender, os dois autores deixam claro duas questões significativas, sobre o processo de aculturação dos guaranis. A primeira, é a inegável existência de um estado independente - tanto da coroa portuguesa quanto da espanhola; com seu território definido, com identidade e interesses próprios, obedecendo apenas a seus objetivos que eram os dos jesuítas. A segunda reporta-se à questão da autoridade; apesar do regime de autogestão empregado nas missões e da distribuição de tarefas administrativas entre os índios de acordo com um regime de eleição determinados pela ordem jesuítica, a autoridade máxima e inquestionável estava reservada aos padres, que só respondiam pelas suas atitudes aos seus superiores.
Corroborando essas afirmações, Mallmann aprofunda mais as afirmações de subserviência e dependência dos índios em relação aos missionários, como também nos indica a percepção dos guaranis daqueles que não eram índios nem padres, como sendo o “outro” a ser temido e evitado.
“Os índios guaranis se autodenominavam de “mboya”, que significava vassalo ou criado. Os Padres eram tratados de “pai”, sendo “paítuya” (padre velho) o Padre Cura ou Reitor e chamavam de “paí-mini” (padre pequeno), independente da idade, ao Padre Coadjutor ou companheiro. (...) Quando os índios infiéis se convertem a primeira coisa que pedem aos padres, como condição para conversão, é que não vão servir aos espanhóis, senão ao Rei e nosso Senhor e assim há obrigação estreita de cumprir esta promessa e condição imposta, e se não atender, os índios perdem a confiança no Evangelho e seus Ministros e entendem que somos espiões dos espanhóis e que não pretendem o bem de suas almas, senão se revoltam e atacam os padres (...) O Padre é a alma de tudo: e faz no povoado o que a alma no corpo. Se descuida algo em atender, tudo vai abaixo.”(3)
Nessa breve percepção do comportamento dos guaranis e de seus líderes religiosos no período colonial, verifica-se que a tônica das comunidades indígenas reunidas, nas missões, era a do isolamento físico e cultural, e que o mundo exterior a elas deveria ser visto como abominável e as pessoas desse mundo como pertencentes a outra civilização que ameaçava a existência do povo guarani. Encontramos portanto as raízes da alteridade, manifestada na época da independência do Paraguai, em época anterior a esta.
O período entre a expulsão dos jesuítas do Paraguai e vizinhanças e a libertação política deste da Espanha, não será suficiente para apagar a herança por parte dos guaranis, de pertencerem a uma cultura – construída pelos jesuítas - diferente daquelas com as quais tiveram contato. O índio percebe os missionários como seus guias espirituais, culturais e temporais, lhes devotando completa obediência, fruto da confiança na proteção que os jesuítas ofereciam.
Analisaremos agora o isolamento paraguaio no primeiro período de sua vida independente, o tempo de Francia, e como esse isolamento reforça o sentimento de aversão e de diferença entre os guaranis e os estrangeiros, herdados do período das missões. Começaremos com uma citação da historiadora brasileira Peres Costa
“O Paraguai fôra, desde sua independência até a morte de Francia(1840), uma incógnita na América do Sul. Quase nada se conhecia de seus costumes, de sua vida política e até mesmo de sua geografia. A única expressão conhecida de sua política externa até então fora a defesa feroz de sua autonomia em relação à Argentina, marcada pela recusa em incorporar-se às Províncias Unidas, a derrota da expedição do general Belgrano em 1810 e uma estratégia de completo isolamento em relação aos seus vizinhos.”(4)
Não pretendemos com isso, nesse momento, reafirmar a política de isolamento paraguaio, que é senso comum entre os estudiosos de diversos países e das mais diversas vertentes ideológicas. Utilizamos a citação para explorar a nossa teoria de como este isolamento reforça o sentimento de diferença cultural, de cautela em relação ao “outro” e capacidade de proteger-se perante o perigo de ameaça por parte de outros povos. A xenofobia se acirra neste período e se reaviva através de uma política de Estado a noção de superioridade dos guaranis sobre seus vizinhos.
Alguns acontecimentos reforçam esse sentimento de superioridade, coma a vitória retumbante dos guaranis das missões sobre os bandeirantes paulistas em Mbororé(1641), que livrara finalmente à “República Guarani”, das incursões mortíferas dos caçadores de escravos. Em 1644, o governador do Paraguai Dom Hinostrosa, relata a Madri que devia aos guaranis não só sua vida, como também, a Espanha devia a eles a conservação do Paraguai. “Os jesuítas e seus defensores recordam também que os guaranis nunca tinham sido derrotados pelos exércitos espanhóis, seu território nunca fora conquistado por ninguém ...”(5)
Será apenas a partir da expulsão dos jesuítas, em 1768, que às comunidades guaranis, privadas de seus principais líderes e exortados por esses a não resistirem, que seus territórios serão submetidos à coroa da Espanha, mesmo assim houve resistência, se bem que isolada, de alguns chefes indígenas.
O povo guarda uma tradição de feroz e eficaz luta de resistência contra o invasor. Se devidamente guiados eles eram imbatíveis na defesa de seu território e de sua cultura. É nessa dependência de uma liderança externa à sua cultura, mas identificada e aceita por esta, juntamente com uma devoção total e quase religiosa a essa liderança, que repousam as raízes de sua própria destruição. Os paraguaios, desde os tempos coloniais e no primeiro momento de sua vida independente, se mostraram intransigentes quanto à sua liberdade e superiores aos seus inimigos mesmo em desvantagem material.
E como as lideranças paraguaias se comportam em sua tarefa de guiar esta população em relação aos perigos internos e externos ? Estariam as atitudes práticas de Francia, um ferrenho adepto do iluminismo e considerados inclusive um “jacobino” por alguns estudiosos, tão distantes das atitudes praticadas pelos jesuítas em relação à condução material e ideológica dos guaranis ? Pensamos que, se o arcabouço ideológico que moviam ambos eram diametralmente opostos, suas práticas eram muito parecidas. A percepção da elite dominante paraguaia desde os jesuítas, passando por Francia e pelos López, assinalará um distanciamento delas, tanto do “outro interior” quanto do “outro exterior”. Entenda-se o “outro interior” como a sociedade guarani, e o “outro exterior” como os colonizadores na época colonial, as repúblicas platinas e o Império do Brasil, após a independência do Paraguai. O mundo europeu, e não suas formas degeneradas criadas aqui na América, serão sempre o referencial de civilização para as elites dominantes.
O processo de aculturação proposto e levado adiante pelos seus líderes ocorrerá, no primeiro momento nas reduções, pelo viés assimilacionista, onde a adoção dos elementos culturais ocidentais se fez acompanhada pela eliminação total ou parcial das tradições locais. No segundo momento, o da formação do Paraguai independente, a aculturação se faz pela integração, ou seja, adequando à cultura importada aos valores tradicionais da sociedade guarani dando um sentido a essa cultura de modo a integra-lá nos esquemas e categorias indígenas durante o processo de incorporação.
Este pensamento nos reporta ao duplo genocídio da civilização guarani. Lembremos que, ao tempo de sua conversão e aculturação pelas ordens religiosas, os índios pertencentes às missões eram minoria dentro do universo da nação guarani da região platina. Se as missões lhes proporcionavam relativa segurança contra as investidas dos escravistas, também lhes privavam da liberdade que tinham no mato e de seus costumes tradicionais. No entanto, não poucos as preferiam, pois aquela nova forma de vida fazia sentido dentro da nova conjuntura existente após à chegada dos europeus. O índio era convencido pelos missionários a aceitar a cultura e religião européia individualmente, e não através de seus líderes, pois só obedeciam a seus caciques em caso de guerra. Mesmo abrindo mão de sua cultura, as reduções eram a possibilidade de sobrevivência perante um mundo que se desmoronava. Como lembra Mallmann
“Com a chegada do homem branco houve uma agressão a este sistema natural, que não encontrou condições de rápida adaptação e assimilação ao sistema estranho e diferente, iniciando em conseqüência, uma franca degeneração do equilíbrio vivencial dos indígenas, despreparados para o confronto.
O padre jesuíta apareceu como protetor e salvador dos índios, aquele que sabia de tudo, e para tudo tinha uma resposta e solução. Dizia-se enviado por um Deus onipotente, criador do céu e da terra, e que agora vinha para ensinar a fé, que lhes daria o paraíso na vida eterna.
O índio, curioso e crente por natureza, sem compromisso com nenhuma crença, diante do novo quadro, não hesitava em pular para junto da redução, considerada como tábua para sua salvação. Entrava, assim, para algo que não auxiliara diretamente em organizar e permanecia na condição subalterna de protegido e dependente do poderoso Senhor que era o padre.” (6)
Acerca do genocídio, Lugon tem dados bem significativos, demostrando inclusive que as populações encerradas nas missões não estavam livres da imensa mortandade causada não só pelas expedições dos paulistas, como também, pelas epidemias, as quais os índios tinham pouca resistência.
“ Enfim, logo que a situação se estabilizou, verificou-se que das cem mil ou mais pessoas que somavam só as reduções do Guaíra, antes das invasões dos paulistas, já não restavam com os missionários senão umas doze mil, aproximadamente (...) O Padre Fernandes calculava que os mamelucos de São Paulo e outros portugueses escravistas tinham morto ou subjugado, em 130 anos, dois milhões de índios num raio de mil léguas, ou seja, no conjunto do Brasil, bacias do Paraná e do Uruguai (...) Viu-se um registro autêntico, pelo qual se provava que de trezentos mil índios, tomados e transportados pelos mamelucos em cinco anos, restavam apenas vinte mil (...) Em 1733, 1734 e 1738, epidemias de varíola, sarampo e escarlatina causaram devastações terríveis (...) Já em 1718 a varicela e a peste tinham feito 18.000 vítimas ou, segundo o Padre Cattaneo, mais de 50.000. “ (7)
Finda esta etapa de inserção por assimilação dos guaranis ao “mundo civilizado” e superado este primeiro genocídio da era colonial, a população indígena parte, nas águas da emancipação política da América espanhola, para um outro movimento de aculturação, desta feita pela via da integração, mas que os leva a um segundo e talvez mais monstruoso genocídio, que os deixará por longo tempo estagnados, subjugados e desprovidos de lideranças para se reerguer.
Mesmo os detratores do Paraguai reconhecem sua superioridade guerreira; Thompson afirma que
“Em 1767 o govêrno espanhol decretou a expulsão dos jesuítas, que merecem nossos aplausos por terem evitado o derramamento de sangue, pois com sua influência sôbre o povo bem poderiam ter resistido às ordens do govêrno e permanecido senhores do país (...)”(8)
Vamos lembrar que este inglês, que como historiador não foi muito fidedigno por ser tendencioso, escreve sua obra em 1869. Não se destaca por ser um pesquisador, apenas relata – em determinados momentos conforme seu interesse – o que viu e ouviu da história paraguaia. Parece ter captado o que era corrente no imaginário da população; que eles eram capazes de resistir à invasão de seu território contando apenas com os seus meios.
Quanto a von Versen, o militar prussiano, relata que, ao investigar em várias bibliotecas sobre o Paraguai, antes de sua partida para este país, nada consegue. Portanto, quando em sua obra, publicada logo após a guerra, ao ensaiar uma breve história do Paraguai faz a seguinte colocação:
“Em 1810, como acima dissemos, as autoridades em Assunção não quiseram anuir ao movimento revolucionário de Buenos Aires. O Governador Velasco preferiu ficar leal ao rei e enxotou os argentinos que tinham invadido o Paraguai.”(9)
O autor corrobora, pelo que ouviu, a capacidade dos guaranis em defenderem-se diante de uma ameaça estrangeira. Esta é sempre exortada e reafirmada, mesmo por autores que escreveram sobre o Paraguai através do que viram e ouviram no país antes e durante sua destruição. Nos parece claro que era senso comum, entre a população, a superioridade deles em relação aos invasores desde épocas remotas.
Leon Pomer, a respeito da derrota do General Belgrano ao tentar incorporar a região à confederação e da carta deste à junta revolucionária afirma:
“O General Manuel Belgrano foi derrotado no Paraguai. No decorrer de seu avanço pode observar, perplexo, que tudo estava deserto, que a maioria das casas havia sido abandonada e que as poucas pessoas que apareciam mostravam-se hostis às tropas de Buenos Aires. Escrevera a seus superiores na junta portenha, falando agora do valor dos paraguaios: “Assim é que trabalharam para vir atacar-me de modo incrível, vencendo obstáculos que só vendo pode-se acreditar: pântanos terríveis, rios a nado; a floresta imensa e impenetrável, tudo foi nada para eles, pois seu entusiasmo venceu todas as dificuldades – e como ! – e as mulheres, crianças, velhos, cléricos e quantos se dizem filhos do Paraguai estão entusiasmados com sua pátria e adoram tanto a Velazco que ... ( Belgrano capitula em Tacuarí a 9 de Março de 1811).
Sem dúvida os paraguaios não amavam tanto a Velazco como Belgrano acreditava. Simplesmente consideravam que não havia motivos para subordinar-se a uma junta que por si e diante de si se havia arrogado o direito Vice-Real de exercer o domínio sobre o Vice-Reino do Prata.” (10)
Deste depoimento de Belgrano, transcrito por Pomer, entendemos que não apenas os governantes mas o conjunto da população guarani era avessa à integração com as províncias vizinhas. Percebe-se uma identidade própria, diferenciada de seus vizinhos e uma resistência espontânea promovida pelo conjunto da população. Essa aversão deve-se a percepção de que os povos vizinhos são o “outro”, não por pertencerem a um outro Estado, mas a uma cultura diferente, inferior e ameaçadora aos olhos dos guaranis.
Ao falar dos jesuítas, Pomer lembra que:
“Até sua expulsão constituíram uma poderosa força econômica, política e militar, capaz de enfrentar a autoridade sempre que seus interesses exigissem. Expulsos que foram, nada veio a ocupar o vazio que deixaram ...”(11)
Os resquícios de um passado recente, permeado por uma resistência histórica perante o “outro”, sempre associado ao invasor, exortava a comunidade guarani a reviver sempre que se fazia necessário, um senso de superioridade e invencibilidade ao combater seus inimigos.
Nas palavras de Pomer, o isolamento geográfico e consequentemente cultural, detiveram a criação de estruturas produtivas destinadas à exportação permitindo a essa terra mediterrânea ter um desenvolvimento singular. Sendo o intercâmbio com o além-mar nulo ou insignificante, feito por mediação do porto de Buenos Aires.
Sobre Francia, afirma Pomer
“- por mais autoritário e desagradável que possa ter sido, não serviu para garantir a expropriação do trabalho camponês por um grupo limitado de latifundiários e comerciantes. Foi um produto específico de uma sociedade estruturada de modo original, se comparada às sociedades vizinhas do continente.”(12)
O “Ditador Perpétuo”, aparece nesse cenário cultural como o grande pai. Seu modo autocrático e patriarcal de governar preenche o vazio de liderança existente desde a expulsão dos jesuítas. No nosso entender, a aceitação do governo Francia pela sociedade guarani tem uma estreita relação com a associação dele, pelo povo, como aquele que cuidava da ordem geral da comunidade e não permitia que elementos externos e internos ameaçassem a segurança da população , ou seja, desempenhava um papel semelhante ao dos missionários jesuítas. Assim o prestígio do ditador perante a massa popular se calcava nesta sua capacidade de defesa intransigente da integridade da ordem paraguaia.
Mas como Francia percebia seu papel na chefia do governo ? Para Pomer, Francia desempenhará um papel extraordinário na história do Paraguai independente.
“(...) José Gaspar Rodríguez de Francia, doutor em direito formado pela Universidade de Córdoba, admirador dos pensadores do Iluminismo francês e de Franklin, mas além disso político de um surpreendente pragmatismo. (...) Francia exerceu uma cuidadosa defesa da soberania nacional.”(13)
Francia deparou-se com o dilema de introduzir práticas iluministas em uma sociedade arraigada a valores introduzidos por uma ordem religiosa. Para resolvê-lo, buscou resguardar os valores tradicionais, introduzindo paulatinamente elementos culturais novos mas dentro de um esquema que fizesse sentido à população. Começa com ele a aculturação por integração onde a sociedade guarani deveria ser introduzida à modernidade, mas sem que isto provocasse trauma social.
“As condições objetivas do Paraguai do tempo de Francia, não criadas por ele, - diga-se de passagem -, permitiam ao “Ditador” realizar sua política (...) Em resumo: o não liberalismo de Francia era puro reflexo da realidade. Ocorre ainda que o doutor de Córdoba não tinha mentalidade feudal nem era pessoa disposta a se ligar àqueles a quem mais interessava a imobilidade econômica e social. Muito pelo contrário, emergindo quase do nada, o solitário e misterioso governante realizou o que era necessário, dando prioridade máxima, dentro do possível, ao desenvolvimento nacional, de modo particular no setor agrícola.”(14)
Portanto, Francia portava-se como uma liderança solitária no entender de Pomer, guiando os guaranis de modo paternalista e vendo os índios como protegidos que deviam ser dirigidos por alguém mais capaz, mais esclarecido que eles para que não retornassem à opressão dos antigos dominadores e desfrutassem – dentro da realidade local – dos avanços do mundo moderno. No nosso entendimento, o ditador se via como tendo uma cultura superior aos nativos e esses, por outro lado, necessitavam de sua liderança e proteção. Afastá-los do mundo exterior era um meio eficaz de dar-lhes essa proteção e este pensamento era compartilhado e desejado pela população. Se os guaranis eram superiores a seus vizinhos, Francia era superior aos guaranis. O Paraguai deveria se tornar uma nação moderna, mas sem que com isso sua estrutura social fosse suprimida, e sim integrada sem traumas ao “mundo civilizado” europeu. Confirmando esta forma de pensar afirma Pomer.
“Eles recebiam terra já com o gado e instrumentos de trabalho, fornecidos por uma instituição muito original chamada “estância da pátria” (...) Além do mais, o Ditador Perpétuo reduziu os impostos, suprimiu o dízimo eclesiástico, restabeleceu antigas técnicas agrícolas dos guaranis, com significativo êxito, e se empenhou incansavelmente na alfabetização do povo”(15)
Unir o antigo ao novo, criando um modelo híbrido de civilização, foi o legado de Francia ao povo guarani.
Chiavenatto, da mesma forma que Pomer atribui à Francia a tarefa de ter feito uma revolução no Paraguai. É sua superioridade intelectual advinda de uma mentalidade iluminista adequada a uma realidade cultural já existente, que possibilita essa mudança.
“É um povo que se dedica única e exclusivamente ao trabalho. Que aceita as normas de El Supremo e enche os depósitos do estado daquilo que produz (...) Francia foi o primeiro estadista americano a lançar o lema de “Ordem e Progresso” e, para cumpri-lo, criou uma prática política que se resumiu nessa frase pioneira: “Independência ou Morte”. Com esses dois lemas, afastou o Paraguai da anarquia que imperava nos estados vizinhos (...) O absolutismo de Francia, porém, dentro da perspectiva de seu tempo, não é reacionário. Ele é, em certo sentido, um positivista, que será admirado por Comte e se empolga com Rousseau e Voltaire (...) o Paraguai passa a ser algo peculiaríssimo na América do Sul (...) o único país latino a não ter clero e classe econômica influentes e, em contrapartida, a sofrer uma profunda reforma social que já foi chamada por alguns – embora sem muita propriedade – de ‘socialismo de estado`”(16)
O povo aceita tacitamente a ditadura de Francia e esse a exerce em nome do povo. “El Supremo” preenche o vazio ideológico existente com a partida dos jesuítas, no entanto se esses promoveram a aculturação dos guaranis pela via da assimilação, aquele ira fazé-lo pela integração. O presidente-ditador usará a histórica atitude dos índios de preservar sua integridade social que corresponde a um credo de superioridade em relação ao “outro”, para impor seus próprios valores ao povo, exercendo uma liderança indiscutível, por ser superior, em sua tarefa de levar a sociedade rumo à modernidade. Irá procurar sua inspiração no “mundo civilizado”, ou seja, nos ideais iluministas europeus, afastando a má influência do “mundo incivilizado” da América Latina do âmbito da nação. Estes dois mundos devem ficar afastados; como disse von Versem:
“As crianças não aprendiam geografia; ao paraguaio bastava conhecer o país, bastava-lhe saber que, da outra banda do Rio Paraná, existiam muitas terras, e era de lá que vinham para a capital os estrangeiros”(17)
Sobre o isolamento do Paraguai do mundo exterior, Vilaboy enfatiza no seguinte trecho, que se deve às condições geográficas e ao regime de missões jesuíticas. Para ele, esta conjunção de fatores diferencia a região – e consequentemente seu povo e sua cultura – do resto da América Latina.
“Desde la época colonial el territorio del Paraguay se caracterizó por un acentuado aislamento del exterior, debido a sus peculiares condiciones geográficas. Durante gran parte del período de dominio colonialista espanõl (...) prevaleció en la provincia, a diferencia del resto de la América Latina, la estructura económica impuesta por las misiones de los jesuitas (...) Gracias a estas circustancias favorables lograron extender increíblemente su poderío económico, y llegaron incluso en determinadas ocasiones a controlar prácticamente el poder político de la provincia.”(18)
O autor endossa o que os outros pesquisadores entendem como origem da diferenciação da sociedade paraguaia do resto da América Latina; o isolamento geográfico e o regime de missões.
Para Vilaboy, Francia pertencia ao reduzido grupo de intelectuais da colônia que haviam assimilado e captado as idéias dos enciclopedistas franceses e admiravam as revoluções burguesas ocorridas na França e no Estados Unidos. Calcados nesses ideais, a embrionária burguesia paraguaia estava disposta, uma vez livre do jugo espanhol, colocá-las em prática. Uns, atrelando a sociedade guarani diretamente aos interesse do liberalismo econômico e apoiados pelas antigas classes dominantes, e outros, enter eles Francia, buscariam a inserção da sociedade paraguaia neste movimento de modernidade, mas sem abrir mão da autonomia do país. Sabemos que o segundo desses grupos saiu vencedor apoiados pela massa da população. No entanto o povo foi excluído – ou nunca integrou - do governo e da esfera de decisões. Se as elite diferiam quanto ao modelo a ser imposto, se igualavam na percepção de que eram superiores culturalmente ao povo e imporiam, uma vez no poder, sua cultura à nação.
O que queremos deixar claro é que tanto Francia como seus inimigos políticos, governariam em nome de um modelo importado da “civilizada Europa”. Estavam ideologicamente distanciados dos valores culturais dos guaranis. Ao impor-se no governo, Francia governou em nome do povo, para o povo, com o apoio do povo mas sem a participação deste. Ele tem a sensibilidade de perceber que se aproveitasse a estrutura social previamente construída, poderia por em prática suas idéias – que eram em essência as iluministas – adequando suas práticas aos valores locais. A revolução promovida por ele deveria fazer sentido à população na qual se apoiava e de maneira lenta “mas segura” pensava transformar culturalmente, através de uma política econômica singular, a mentalidade dos paraguaios.
Para tanto, utiliza-se da herança guarani – da qual compartilhava - de intransigente defesa de seu território e de um senso de superioridade destes em relação ao estrangeiro, em benefício do Estado que pensava ser – e talvez estivesse correto – o veículo das aspirações dos paraguaios.
Esta raiz iluminista que permeava a intelectualidade local fica claro na citação de Vilaboy
“Los pocos intelectuales de la colonia se hallaban permeados por la teorías políticas, sociales y filosóficas, que andaban en boga por Europa desde hacía algunos años, Muchos de ellos se habían formado en la Universidad de Córdoba, o en la más culta de Charcas, por lo que captaron y asimilaron las principales ideias de los enciclopedistas franceses, el entonces avanzado pensamiento de hombres, como Rousseau, Voltaire y Montesquieu. Además, admiraban las revoluciones burguesas de Francia y Norteamérica y deseaban imitarlas.”(19)
Vejamos agora, de que forma as lideranças representativas das classes trabalhadoras apoiam e delegam à Francia todo o poder, abrindo mão de suas prerrogativas tradicionais. É possível verificar a mentalidade da população guarani que, uma vez apoiando aquele que entendiam ser o líder que defenderia seus interesses – que eram a não interferência e subjugação do Paraguai aos estrangeiros -, delegam a este todo o poder. Francia por sua vez vai alijando a população do âmbito das decisões e consequentemente se tornando mais autônomo(*) para impor sua política sem a intervenção tanto de seus inimigos quanto de seus aliados. A nação guarani, uma vez definida sua liderança, estará pronta para ser guiada pela senda dos “ideais civilizados”, ou seja, do iluminismo Europeu, que o ditador saberá adequar à realidade da estrutura social existente, modificando-a mas dando um sentido compreensível para as mudanças que seriam implementadas.
“El doctor Francia, com gran agudeza política, preparó com tiempo las condiciones que le permitieron obtener una mayoría de campesinos en el Congresso de Vecinos (...) resultó posible que la mayoria de los mil diputados del Congresso fueron miembros de las clases trabajadoras (...) En 1816 fue convocado outro Congresso Nacional, pero esta vez com la asistencia de sólo doscientos cincuenta diputados. (...) presentaron una mocíon en favor de la Dictadura Perpetua, proposición que fue aceptada por aclamacíon, y se le otorgó al doctor Francia el nuevo cargo. Finalmente, los diputados acordaron que sólo se volverían a reunir a petición expresa del dictador.”(20)
Outro fator importante para reforçar o desconhecimento tanto dos paraguaios em relação as seus vizinhos e vice-versa, foi o fechamento das fronteiras do país após sua independência. Para a elite dominante, o isolamento político desta, em face às nações vizinhas e ao resto do mundo, a privou de uma percepção mais global dos perigos que pairavam sobre o país por ser este vilipendiado no estrangeiro não tendo um corpo de embaixadores para poder defendê-lo. A classe dominante e o povo se viram assim alijados do convívio e consequentemente do conhecimento do que acontecia além das fronteiras do Paraguai. Em seu intuito de neutralizar qualquer interferência de Buenos Aires na política paraguaia, de impedir o contato dos adeptos do liberalismo comercial – grandes proprietários e comerciantes – com seus pares das nações platinas e não deixar a população se contagiar com as revoluções promovidas pelos caudilhos platenses, Francia reforça a secular desconfiança que os guaranis tem dos estrangeiros e aprofunda o desconhecimento que estes tem do Paraguai. Transladamos algumas afirmações de diversos autores que corroboram o que foi dito acima.
Para Thompson,
“Francia fechou o Paraguai, inteiramente, por terra e água, a qualquer comunicação com o exterior, colocando guardas e destacamentos em tôdas as fronteiras. Proibiu a entrada e saída do país, tanto de pessoa como de bens, e quem quer que fosse encontrado tentando abandonar o país ou procurando enviar dinheiro para fora, era fuzilado. Permitia-se, de vez em quando, que algum navio entrasse no Paraguai, trazendo mercadorias (...) mas quaisquer outros estrangeiros caídos em seu poder, êle não mais permitia saíssem do país.”(21)
Segundo Versen,
“A princípio permitiu espécie de comércio, que se operava exclusivamente por intermédio de agentes oficiais; ao depois cortou todas as relações com o mundo externo (...) Avesso as relações internacionais de quaisquer espécie, não admitia no país representantes diplomáticos ou consulares, nem dava resposta às comunicações oficiais de outras nações.”(22)
Thompson e von Versen, que estiveram no Paraguai durante o período estudado, provavelmente ouviram falar daquele período em que o país estava literalmente isolado do mundo exterior. Apesar de não concordarmos com os motivos que eles alegam para tal situação, ambos comprovam – em relação ao fato – o que efetivamente ocorreu.(ver cap. 1)
Pomer, Chiavenatto e Vilaboy também confirmam o fechamento do Paraguai, apenas alegando motivos diversos dos autores anteriormente citados.(ver cap. 2)
Pomer afirma,
“Francia não pretendeu enclausurar sua pátria entre as quatro paredes de seus rios e selvas. Sempre, porém, que isso se fazia necessário, para preservar sua independência, ele não vacilava. O fechamento do Paraguai fez com que o país se voltasse sobre sí mesmo e se torna-se auto-suficiente.”(23)
Chiavenatto estende este pensamento a outros setores da sociedade na citação abaixo:
“Mas não se governa um país sozinho. Francia alia-se, então, aos que então, aos que estão desvinculados dos interesses de Buenos Aires, para sua sorte (...) o povo (...) As fronteiras estão fechadas: nada entra ou sai.”(24)
Vilaboy ressalta o “perigo estrangeiro” na afirmação,
“Como hemos visto, el Estado paraguayo impidió la intromisión extranjera, regulando estrechamente las entradas y salidas de visitantes y comerciantes foráneos. En épocas de total aislamiento del Paraguay, provocado por la hostilidad de los Estados vecinos, el gobierno del doctor Francia mantuvo prisioneros a algunos extranjeros que habían introducido ilegalmente en el país o com sus acciones amenazaban la seguridad nacional”(25)
Para manter a segurança nacional tanto das ameaças interiores como exteriores, e forçado pelo bloqueio imposto por Buenos Aires, Francia controla rigorosamente a entrada e saída de pessoas, mercadorias e bens no Paraguai. O já frágil contato mantido pela região com o exterior é, por um longo período – cerca de trinta anos -, reduzido somente a um eventual e irregular comércio feito somente através do Estado.
O temor, desprezo e sentimento de superioridade em relação ao “outro” – os vizinhos do prata e o Império do Brasil – serão irremediavelmente acirrados na primeira fase do Paraguai independente.
O sucessor de Francia, Carlos Antônio López e seu filho Francisco Solano López irão amenizar em certo sentido este isolamento. Estabelecerão as relações comerciais e diplomáticas com o exterior, mas manterão o povo e a elite sem contato com os estrangeiros, e mesmo quando este contato se fazia inevitável, o reduzirão ao mínimo necessário para atender aos interesses sobretudo do estado nacional e, em menor medida, aos interesses das classes privilegiadas. Será nesta segunda etapa da política paraguaia que se aprofundará o segundo processo de aculturação do povo guarani começado por Francia e se dará também, o segundo genocídio dessa nação.
A introdução lenta, mas progressiva, de técnicos e técnicas na estrutura econômica e social do país, irá acelerar a introdução dos valores culturais vigentes na Europa. Não queremos dizer com isto que a sociedade foi lançada radicalmente na senda da cultura européia, nem que essa cultura abrangeu plenamente a totalidade do tecido social, lembramos que o processo estava em andamento quando o Paraguai se lança à guerra e é por ela destruído. Mais que isto, esta transformação irá resguardar os valores fundamentais da antiga estrutura criada à época das missões jesuíticas, estes valores serão utilizados pelos López – como o foi por Francia -, para atender objetivos que eram próprios dos que ocupavam o poder.
Paradoxalmente, se por um lado as atitudes dos sucessores de Francia minimizou o isolamento no qual a nação se encontrava, por outro aumentou o abismo cultural que separavam tanto à elite paraguaia do povo, quanto o que separava o povo guarani de seus vizinhos. Quanto mais o país se modernizava, maior se fazia a diferença entre a chamada “gente calzada” , ou seja, a classe privilegiada e o povo. O igualitarismo, a austeridade, a renuncia ao luxo e aos artigos importados, que foram normas severas no período Francia, davam lugar a um distanciamento cada vez maior entre a classe dominante e a massa da população, pois aquela passou a cultivar o luxo e os valores culturais europeus como símbolos de uma nova era de prosperidade e mudança de mentalidade pela qual o país atravessava. E essa prosperidade, principalmente material, obtida pelo estado – que continuava a ser o eixo central da política e da economia – distanciará e acirrará a compreensão, comum à toda a sociedade, de que o Paraguai era imensamente superior a qualquer de seus vizinhos, ou a todos eles juntos. Deste sentimento comungarão ambos, classe dominada – camponeses, artesãos, peões, etc - e classe dominante, e juntos levarão as últimas conseqüências esta visão de superioridade sobre seus inimigos.
Sobre essas transformações afirma Thompson sobre o povo e a alta sociedade
“... Dom Carlos Antonio López se apoderou do govêrno (...) começou seu reinado favorecendo, do modo mais inescrupuloso, a fortuna de seus filhos (...) Cada um dos filhos tinha casa e escritórios próprios, e eram todos muito falados por sua vida libertina (...) As classes elevadas, naturalmente, viviam mais à moda européia, e havia muitas famílias ricas, de vida confortável (...) O trajo masculino consistia em um chapéu prêto alto, como os que presentemente estão em uso na Europa (...) não usavam calçados (...) As mulheres (...) Também não usavam sapatos (...) As senhoras e cavalheiros, na cidade, vestem-se como europeus, e as damas revelam em geral muito bom gôsto. Têm muito donaire e são graciosas, e quem assistisse a um baile em Assunção, quase poderia acreditar-se em Paris.”(26)
Neste momento a diferenciação social é bem patente e cultivada pela liderança política. A gente “branca” se vê economicamente e culturalmente superior aos mestiços e índios, eles devem guiar os costumes e a mentalidade do povo e consequentemente seus destinos. Vêem o “outro interior” como desigual e inferior e esse se aceita como tal. Mas essa aceitação se dá devido à população se sentir inserida dentro desse movimento de prosperidade social e protegida por quem os dirige.
A aceleração da modernização ocorrida principalmente no aspecto material à partir do governo dos López intensifica o processo de aculturação por integração da sociedade guarani. Os investimentos estatais em obras de infra-estrutura possibilita o aburguesamento cada vez maior de camadas da população e enriquece as classes dominantes. Chiavenatto deixa claro este processo nas seguintes passagens sobre o tempo dos López
“O seu método é simples: ele traz do exterior todos os técnicos que o país precisa para implementar a base do seu desenvolvimento industrial (...) Dessa forma, a primeira ferrovia do país é planejada (...) com capitais nitidamente nacionais e dirigidas pelo estado. É uma estrada de ferro (...) que visa, especialmente, e tão-só, a atender interesses paraguaios. Assim chegam engenheiros, professores, arquitetos, geólogos, médicos, instrutores militares e até jornalistas. Eles chegam para estabelecer as bases do desenvolvimento: constróem fábricas e hospitais; fundam-se diversas empresas. Enfim, o que Carlos Antonio López faz é criar condições básicas para o progresso e modernização do país, sem atrelá-lo ao imperialismo econômico inglês (...) manda para a Europa (...) e para os Estados Unidos, os jovens mais promissores (...) para se especializarem em diversas áreas (...) O Paraguai está numa ebulição de progresso (...) ele construiu uma indústria de base, moduladora do progresso, com domínio total e absoluto do Estado – o que no Paraguai da época equivalia a dizer: a serviço do povo.”(27)
O autor estabelece uma ligação entre esse surto de desenvolvimento e o aumento da coesão moral entre governo – entendido por nós como classe dominante – e o povo. O governo e a classe privilegiada a ele atrelada se afastam material e culturalmente do povo, se acirra o sentimento de superioridade daquele setor social em relação a este. O estado, mais que nunca, como reflexo dos ganhos materiais obtidos na economia, se arroga destinado a guiar o povo e, através de liturgias sociais, demostra à população que seus dirigentes são patriarcas infalíveis em sua tarefa de levar o Paraguai à supremacia entre os estados latino-americanos. O povo cada vez mais ganha consciência de que sua nação é superior a qualquer outra por eles conhecida – diga-se seus vizinhos platinos. Chiavenatto afirma:
“Evidentemente, toda essa estrutura político-econômica produz um tipo de participação popular autêntica (...) esse comportamento popular, que vem dos tempos de Francia, observa-se em todos os níveis e é uma causa de admiração do sucesso de administração de Carlos Antonio López (...) Essa coesão moral entre governo e povo, sedimentada por uma estrutura sócio-econômica que emancipou o país, estava levando o Paraguai a ser , em poucos anos, a mais progressista república americana – o que já era potencialmente.”(28)
Uma crítica a Carlos Antônio López é não ter formado uma classe dirigente que fosse capaz de auxiliá-lo(29) e de exercer um governo autocrático, exercer o poder pessoal e eliminar fisicamente seus oponentes.(30) Quanto à forma de governo, a unanimidade é de que era uma ditadura; constitucional para alguns e de força para outros.(31) Há uma maior intervenção do estado sobre a economia pois todo o seu projeto de inserção no mercado mundial seria feito através do Estado. Para alguns historiadores ele foi um governante inovador e progressista,(32) para outros conservador e retrógrado. Como seu predecessor a avaliação de Carlos López, de sua origem e de seu governo é sempre obscura e apaixonada. Portanto, cabe fazer-se perguntas que, se respondidas de modo apropriado, levariam a uma avaliação mais racional deste período da história do Paraguai. Qual o custo social que teve a inserção da nação no mercado mundial, ao serem expropriadas as terras comunais – que passaram para o Estado – como reagiram as comunidades indígenas e suas lideranças ? Como López se impõe no poder, uma vez que era declaradamente opositor de Francia ? A quem servia a cultura do país já que o povo paraguaio não fala por sí, fala sempre através de estrangeiros ou do estado ? O estado paraguaio pensa ser o povo e pensa pelo povo, e esta atitude patriarcal por parte de seus dirigentes, com a cumplicidade da população, será, mais que qualquer outro, o motivo da destruição final da nação guarani.
Ao assumir o poder, Francisco Solano López, encontra um Paraguai “aberto”, ligado ao mundo(Europa) e à América. Encontra uma economia já parcialmente dirigida ao mercado externo (fumo, madeira e erva-mate), o desenvolvimento recente da cultura do algodão e da produção de couro reforçam tal tendência.(33) Não havia dependência ou submissão ao mercado externo, mas igualmente não se fugia dele; pelo contrário o crescente interesse de Solano López na situação do Uruguai comprova sua intenção de reforçar esse comércio, sem a danosa mediação de Buenos Aires. No aspecto interno, a situação não tinha se alterado, o estado continuava forte, monopolizador e centralista. É nesse contexto que os atritos com seus vizinhos aumentam, a ascensão do Paraguai incomoda o equilíbrio dual do Brasil e Argentina. Embora novamente alguns autores centrem sua análise em uma determinação externa (última instância) para o conflito vindouro. Não queremos aqui negar a participação inglesa na Guerra do Paraguai, desejamos apenas mostrar que mais significativos que os interesses ingleses na guerra, existiam os interesses locais; Argentina, Brasil e Paraguai. Chiavenatto afirma:
“... Assombroso, porém, é que o império do Brasil e a Confederação Argentina unam-se para colocar em prática a destruição proposta pela diplomacia inglesa – atendendo às necessidades do seu imperialismo econômico !”(34)
É assombrosa sim a desvalorização do Império do Brasil de sua responsabilidade na guerra, podendo então responsabilizar apenas à Inglaterra e seu imperialismo, tal como fazem os soldados que matam e assassinam culpando seus comandantes. Certamente, não era o Paraguai que estava rompido diplomaticamente com a Inglaterra no início das hostilidades, o representante do governo inglês durante todo o conflito não abandonou o país (ao contrário de outros diplomatas) e, pasmem, nem mesmo Solano López o expulsou.(35) Deve ficar claro que não concordamos com a tese tradicional do Paraguai bárbaro e selvagem, mas igualmente não pretendemos cair no outro extremo.
A guerra se inicia em novembro de 1864 e é uma guerra para a manutenção de um Paraguai aberto, participante ao comércio mundial. É essa a razão para a defesa frenética do regime uruguaio de Aguirre, ou seja, da possibilidade de uma porta (= porto) aberta (sem intervenção e taxações extorsivas de Buenos Aires) à Europa. É essa a explicação para o ataque ao Brasil. Com o fracasso da ofensiva e a derrota em Riachuelo o Paraguai se retrai para uma desesperada tentativa de sobrevivência. Com tal fato, como nos tempos de Francia, a sua indústria nascente tem que produzir os artigos utilizados no conflito. Não podemos exagerar essa autonomia; médicos e técnicos ingleses ajudaram na montagem de toda a infra-estrutura militar básica; (36) como vemos a Inglaterra não é tão hostil ao Paraguai, a retirada desses homens (e sua permanência), simbolizam a atitude inglesa e o reconhecimento do Paraguai que ela não é sua inimiga. Quando ao final se entende que a guerra está perdida para a república guarani, o império Britânico assume então o seu papel de ardorosa aliada da tríplice aliança; a retirada destes técnicos é feita à partir de 1868, ou seja, depois da queda de Humaitá.
O encontro dos paraguaios com o “outro exterior” não foi exatamente o que previa o governo, que nas palavras de Thompson – engenheiro chefe do exército guarani - seria “um mero passeio militar de várias centenas de milhas”.(37) Também não seria o que Mitre esperava “que em vinte e quatro horas estaremos nos quartéis, em duas semanas estaremos em Corrientes, e em três meses, em Assunção”.(38) Ambas as afirmações refletem o total e recíproco desconhecimento da realidade concreta dos oponentes que iriam se enfrentar. Em 1870 a guerra chega ao seu final com a morte de Solano López, e as terras em litígio são apropriadas tanto pelo Brasil como pela Argentina.
“... desde 1870 passaram às mãos privadas 29 milhões de hectares de terra, dos quais 25 milhões são vendidos, presenteados ou dilapidados depois da guerra. Por propriedade privada deve-se entender - desde logo - capitalistas estrangeiros”.(39)
Assim, a opção paraguaia finda em 1870, sua integração responde a uma completa subordinação, tal como o período intermediário entre a expulsão dos jesuítas e a independência da Nação Guarani. Não estudamos estes pontos porque eles denotam uma imposição externa (do sistema colonial, do imperialismo inglês, ou do expansionismo brasileiro ou argentino); a intenção interna seja lá qual fosse, não mais existe após Cerro Corá.
Na revisão histórica que o tema - Guerra do Paraguai - sofre nas últimas décadas destaca-se a excessiva idealização do Estado Paraguaio, chegando a apontar que sua possível vitória no conflito referido inauguraria uma etapa de prosperidade econômica independente, igualdade social máxima e liberdade frente ao imperialismo inglês de então. Essa corrente de pensamento aponta para um país desenvolvido, sem miséria, sem analfabetos, sem propriedade privada; um paraíso diriam seus autores se a coragem não lhes faltasse, socialista. A América Latina subdesenvolvida e espoliada de hoje teve um dia a chance do desenvolvimento, perdeu a mesma pela famigerada conspiração inglesa, seu futuro (nosso presente) foi decidido na beira do Aquidaban, lá em Cerro Corá. Solano López, no dizer desses autores, não morreu somente com sua pátria, faleceu conjuntamente com a esperança latino-americana. Desta proposta, infelizmente não participamos; idealizar o Paraguai é tão incorreto como barbarizá-lo; sua independência distinta deve ser valorizada, mas não mitificada, bem como seus governantes.
Sua experiência parece que seguia um caminho diverso para a mesma meta das outras nações; ele não queria negar o capitalismo, ele queria estar inserido nele, mantendo (pelo menos até o ponto que estudamos) sua especificidade interna. Seu futuro, caso vencesse o conflito, só pode ser especulado, mas definitivamente não acreditamos que seria de uma “cruzada” libertadora dos povos brasileiro e argentino escravizados pelo capital britânico, talvez fosse justamente um instrumento deste para um novo tipo de exploração destas mesmas regiões. Tal como o Brasil e Argentina impuseram uma lógica econômica ao Paraguai derrotado, aliados do capital inglês; quem sabe (a especulação nos permite) o Paraguai vitorioso imporia outra lógica econômica filiada a outros aspectos do mesmo interesse inglês. A Inglaterra, como boa nação imperialista, não poderia perder, seja qual fosse o resultado da Guerra do Paraguai.
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(1) Hobsbawm, Eric J. A Era do Capital 1848 – 1875. pag. 276.
(2) idem, ibdem. pag. 276.
(3) Thompson, George. A Guerra do Paraguai. pag. 22.
(4) Von Versen, Max. História da Guerra do Paraguai. pag. 51.
(5) Sena Madureira. A Guerra do Paraguai. pag. 10.
(6) Hobsbawm, Eric J. A Era do Capital 1848 – 1875. pag. 276.
(*) Ilmar R. Mattos – “O tempo Saquarema”. São Paulo, 1987.
(7) idem, ibdem. pag. 275.
(8) idem, ibdem. pag. 74.
(9) Thompson, George. Guerra do Paraguai. pag. 22.
(10) idem, ibdem. pag. 23.
(11) idem, ibdem. pag. 26-27.
(12) idem, ibdem. pag. 29.
(13) idem, ibdem. pag. 27.
(14) idem, ibdem. Prefácio.
(15) idem, ibdem. pag. 34.
(16) idem, ibdem. pag. 169.
(17) idem, ibdem. pag. 160.
(18) idem, ibdem. pag. 49.
(19) Hobsbawm, Eric J. A Era do Capital 1848 – 1875. pag. 281.
(20) idem, ibdem. pag. 279.
(21) idem, ibdem. pag. 272.
(22) Von Versem, Max. História da Guerra do Paraguai. pag. 164.
(23) idem, ibdem. pag. 14-15.
(24) idem, ibdem. pag. 48.
(25) idem, ibdem. pag. 51.
(26) idem, ibdem. pag. 52.
(27) idem, ibdem. pag. 52-53.
(28) idem, ibdem. pag. 53.
(29) Taunay, Alfredo D’escragnolle. A retirada da Laguna. pag. 27.
(30) idem, ibdem. pag. 41.
(31) idem, ibdem. pag. 70-71.
(32) idem, ibdem. pag. 119.
(33) idem, ibdem. pag. 184-185.
(1) Pomer, Leon. Paraguai: Nossa guerra contra esse soldado. Pag. 7.
(2) idem, ibdem. pag. 10.
(3) idem, ibdem. pag. 11-12.
(4) Novais, Fernando A. Portugal e Brasil na Crise do Sistema Colonial(1777-1808). pag. 300.
(5) Pomer, León. Paraguai: Nossa guerra contra esse soldado. pag. 12.
(6) idem, ibdem. pag. 13.
(7) idem, ibdem. pag. 13.
(8) idem, ibdem. pag. 14.
(9) idem, ibdem. pag. 14.
(10) idem, ibdem. pag. 17.
(11) idem, ibdem. pag. 18.
(12) idem, ibdem. pag. 18.
(13) Chiavenatto, Julio José. Genocídio Americano: A Guerra do Paraguai. pag. 15.
(14) idem, ibdem. pag. 16.
(15) idem, ibdem. pag. 18.
(16) idem, ibdem. pag. 20.
(17) idem, ibdem. pag. 27.
(18) idem, ibdem. pag. 28.
(19) idem, ibdem. pag. 30.
(20) Hobsbawm, Eric J. A Era do Capital 1848 – 1875. pag. 58-59-60.
(21) Júnior, Caio Prado. História Econômica do Brasil. pag. 170.
(22) Chiavenatto, Julio José. Genocídio Americano: A Guerra do Paraguai. pag. 35.
(23) idem, ibdem. pag. 111-112.
(24) idem, ibdem. pag. 111.
(25) idem, ibdem. pag. 113.
(26) idem, ibdem. pag. 37.
(27) Vilaboy, Sergio Guerra. Paraguay: De La Independencia a La Dominacion Imperialista 1811 – 1870. pag. 1-2.
(28) idem, ibdem. pag. 41-42.
(29) idem, ibdem. pag. 65-66.
(30) idem, ibdem. pag. 68.
(31) idem, ibdem. pag. 87.
(32) idem, ibdem. pag. 95.
(33) idem, ibdem. pag. 99.
(34) idem, ibdem. pag. 94.
(35) idem, ibdem. pag. 141.
(*) A visão que se tem do outro à partir de seus próprios valores culturais.
(1) Fausto, Boris. História do Brasil. pag. 11.
(2) Lugon, C. A República “Comunista” Cristã dos Guaranis. pag. 69-70;87;91-92.
(3) Mallmann, Alfeu Nilson. Retrato sem Retoques das Missões Guaranis. pag. 96-97;100;105.
(4) Costa, Wilma Peres. Aespada de Dâmocles. pag. 114.
(5) Lugon, C. A república “Comunista” Cristã dos Guaranis. pag. 286.
(6) Mallmann, Alfeu Nilson. Retrato sem Retoques das Missões Guaranis. pag. 110.
(7) Lugon, C. A República “Comunista”Cristã dos Guaranis. pag. 58;64;82.
(8) Thompson, George. Guerra do Paraguai. pag. 22.
(9) Versen, Max von. História da Guerra do Paraguai. pag. 51.
(10) Pomer, Leon. As independ^ncias na América Latina. pag. 137-138.
(11) idem, ibdem. pag. 134-135.
(12) idem, ibdem. pag. 141.
(13) idem, ibdem. pag. 140.
(14) Pomer. León. Paraguai: Nossa guerra contra esse soldado. pag. 14-15.
(15) idem, ibdem. pag. 16.
(16) Chiavenatto, Julio José. Genocídio Americano: A Guerra do Paraguai. pag. 22-23.
(17) Versen, Max von. História da Guerra do Paraguai. pag. 52.
(18) Vilaboy, Sergio Guerra. Paraguay: De la independencia a la dominacion imperialista 1811 – 1870. pag. 33-34.
(19) idem, ibdem. pag. 42.
(*) Garantindo poderes extraordinários para o executivo.
(20) idem, ibdem. pag. 61;67.
(21) Thompson, George. Guerra do Paraguai. pag. 23.
(22) Versen, Max von. História da Guerra do Paraguai. pag. 51.
(23) Pomer, León. Paraguai: Nossa guerra contra esse soldado. pag. 14.
(24) Chiavenatto, Julio José. Genocídio Americano: A Guerra do Paraguai. pag. 19.
(25) Vilaboy, sergio Guerra. Paraguay: De la independencia a la dominacion imperialista 1811 – 1870. Pag. 83.
(26) Thompson, George. Guerra do Paraguai. pag. 27-28.
(27) Chiavenatto, Julio José. Genocídio Americano: A Guerra do Paraguai. pag. 30-31.
(28) idem, ibdem. pag. 33.
(29) idem, ibdem. pag. 34-35-36.
(30) idem, ibdem. pag. 44.
(31) Versen, Max von. História da Guerra do Paraguai. pag. 51.
(32) Chiavenatto, Julio José. Genocídio Americano: A Guerra do Paraguai. pag. 27.
Versen, Max von. História da Guerra do Paraguai. pag. 51.
(33) Chiavenatto, Julio José. Genocídio Americano: A Guerra do Paraguai. pag. 30.
(34) idem, ibdem. pag. Cap. II e IV.
(35) idem, ibdem. pag. 72.
(36) Gomes, Carlos Oliveira. A Solidão segundo Solano López.
(37) Chiavenatto, Julio José. Genocídio Americano: A Guerra do Paraguai. cap. X.
(38) Thompson, George. Guerra do Paraguai. pag. 19.
(39) idem, ibdem. pag. 54.
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